sexta-feira, 31 de maio de 2013

Teatro Infantil Está Longe de Ser Fácil


Quando recebi a divulgação de um espetáculo infantil que seria apresentado no Theatro Guarany no dia 03 de abril de 2013, dois sentimentos surgiram. O primeiro de curiosidade pela obra que eu desconhecia e o outro de medo pela possibilidade de termos mais uma peça de teatro infantil com qualidade duvidosa e que trate as crianças como seres sem senso crítico.

Já comentei em outras críticas sobre o descaso com que alguns grupos de teatro tratam a concepção das peças infantis. Alguns atores criam personagens tão canastras que as crianças não demoram nem cinco minutos para se desinteressarem pela história. Outros diretores confundem desfile de carnaval com espetáculos para teatro e concebem encenações poluídas com fantasias em vez de figurinos; cenários desconectados da proposta, mas que esbanjam uma suntuosidade vazia; iluminação no estilo árvore de natal e músicas que costumam passar nos programas da TV aberta durante os domingos, ao invés de uma trila musical adequada ao contexto e ao público alvo.

Apesar de fazer essa introdução, não quero dizer que o espetáculo sobre o qual escreverei logo a seguir tenha cometido esses equívocos. Mas, sempre que se ouve falar de uma peça de teatro infantil, todas essas situações se tornam recorrentes e fazem necessárias de serem trazidas ao contexto de toda crítica teatral para que os leitores, quando forem ser espectadores de tais espetáculos, já se desloquem de suas casas com o olhar aguçado. Tomara que essas advertências já sirvam como estímulo a você que está lendo esse texto para criticar e negar os próximos espetáculos infantis que venha a assistir e se enquadrem nas características descritas acima. Os ganhadores dessa postura serão as crianças, pela exigência de qualidade superior nas peças de teatro que lhes são ofertadas.

O espetáculo Céu e Terra, Água e Ar, Tudo Fede Sem Parar..., baseado no texto alemão Wasser in Eimer, de Reiner Luckner e Stefan Reisner, tem a direção de Camilo de Lélis, dramaturgia de Ramón Berta Wayne, adaptação de José Lutzemberger, até que tem uma boa intenção ao se propor a contar uma história que incentiva o valor e a preservação do meio ambiente. No entanto, a história não saiu do palco. As crianças não se identificaram e não “viajaram” no enredo. Isso se tornava perceptível pelo fato da enorme dispersão das crianças, além da agitação de costume em uma peça infantil. As crianças não prestavam atenção na história e mais queriam brincar na plateia do teatro, do que prestar atenção na peça.

Possibilidades para essa rejeição das crianças são inúmeras. Nesse sentido, vou me ater apenas as que acredito que pudessem ser resolvidas facilmente pelo diretor do espetáculo. Em primeiro lugar, um teatro como o Guarany que possui um sistema acústico direcionado para grandes espetáculos musicais, sempre causa um enorme problema aos atores, já que esses não costumam ter a técnica vocal dos cantores de ópera para conseguirem ser ouvidos em todos os cantos da plateia. Sobretudo, em um espetáculo infantil, onde sabemos que as crianças sempre permanecerão conversando e se manifestando durante toda a apresentação. Esse fato demanda que os atores tenham uma técnica vocal impressionante para que suas vozes consigam se sobressair as dos espectadores.

Mas, no caso do Teatro Guarany, fazer uma apresentação para o público infantil é quase que uma tortura para o elenco, já que a acústica do teatro não lhes favorece. Desse modo, acredito que caberia ao diretor constatar esse problema e providenciar microfones ao elenco para que as crianças pudessem ao menos terem escutado a história da peça. Talvez, esse tenha sido um dos motivos pelos quais os espectadores se mostravam tão desinteressados, pois eles, simplesmente, não ouviam o que estava acontecendo.

Sobre o elenco formado por Evandro Soldateli, Lisandro Bellotto, Elisa Lucas e Ana Schneider, destaco as participações dos dois atores, uma vez que seus esforços em se fazerem ser ouvidos obtinham melhores resultados. O destaque ficou para Evandro que conseguia desenvolver uma relação mais próxima com a plateia e controlá-los com mais facilidade que o resto do elenco, além de conseguir ter um volume vocal que lhe favorecia.

Algumas piadas fáceis e soluções simplistas para a história não funcionaram em nenhum momento. Além disso, me parecia que o texto continha piadas que apenas os adultos compreenderiam o subtexto delas. Todas elas eram desnecessárias à história daquelas personagens.

Outro fator me incomodou bastante foi a iluminação. O espetáculo foi muito mal iluminado. A maior parte do tempo havia pouca luminosidade. Os espectadores já estavam com dificuldade de ouvir os atores e ainda havia pouca luminosidade. As cenas eram escuras, sem terem a necessidade de ser. Não era uma opção estética de encenação. Se foi, ela estava incoerente com todo o resto do espetáculo. Além disso, apesar do equipamento de iluminação presente no local, os focos estavam mal afinados, criando sombras inclusive nos lados do palco, desviando a atenção a cada vez que eram acessos.

O público infantil carece de espetáculos teatrais. Porém, isso não significa que devemos descuidar da qualidade do produto artístico que ofertamos às crianças. Essas experiências e vivências serão importantíssimas na formação de plateias futuras e no desenvolvimento do senso estético dessas pessoas. Por esse motivo, reforço a necessidade de olharmos para o teatro infantil com olhos mais respeitosos e não o encararmos como uma fatia de mercadológica de venda fácil para os espetáculos de teatro.

Mesmo tendo uma sensação desagradável em relação a esse espetáculo, saliento que todos os artistas envolvidos nessa montagem são bastante reconhecidos pela sua competência no meio artístico. Inclusive, observei o estado de exaustão que os atores ficaram após a apresentação, dadas as condições estruturais da casa de espetáculos. Porém, todas essas questões deveriam ser mais cuidadas pela produção da peça ainda durante o seu processo de ensaios.

Vagner Vargas
Ator – DRT: 6606
Crítico de Teatro



quinta-feira, 21 de março de 2013

Tabataba escancara a fragilidade humana



Por Joice Lima*
Um irmão. Uma irmã. Uma casa abandonada. Dois irmãos abandonados. Uma relação de dependência mútua. Uma casa em ruínas. Dois corações em ruínas. Dois corações que anseiam por liberdade. Duas almas aprisionadas. Uma à outra... Ou a si mesmas... Às suas próprias neuroses e fragilidades. À incapacidade de ir adiante. À necessidade de culpar o outro pela própria impotência. O pequeno espelho mostra oitenta pessoas atentas na plateia, mas a peça mostra muito mais. Mostra o quanto somos selvagens e, ainda assim, humanos. Humanos demais. Tão humanos que dói.
Irmão e irmã que gritam sua angústia, a frustração e o desespero pela incapacidade de sair "dali". Estão supostamente em uma ilha, mas poderiam estar em um arranha-céu, no meio de uma cidade grande. A solidão seria a mesma. A moça, Maiamuna, sonha em se casar, mas para fazer isso “precisa” encontrar uma concha fechada, "perfeita", que ela busca diariamente. O rapaz, Putoabu, sonha em conhecer o mundo, mas precisa terminar sua moto, imaginária, que ele monta, aos poucos, com pedaços de sucata. "Eu preciso ir, mas só vou se você for primeiro. Vai você! Vai você! Se não for, não posso ir". Um "precisar" autoimposto para disfarçar o medo, não, o terror de enfrentar o desconhecido. Mais fácil empurrar para o outro o peso das minhas decisões não tomadas. Mais fácil ficar e reclamar. Humano demais. Dói.

Um escancara a fraqueza do outro com sinceridade cruel – o dedo, impiedoso, enfiado na ferida aberta. Expõe a ferida do outro, mas segue imerso na própria fantasia. O ataque como defesa. Autoproteção. Apesar da agressividade mútua, o sentimento entre os dois derruba qualquer barreira de ódio. União fraternal... Sexual... Irmandade. Amor. Ou necessidade? Dependência? Precisam um do outro para manter seu teatro particular, sua vida protegida dos perigos do mundo real. Precisam um do outro... Será mesmo?

Tabataba, encenada a partir da peça do francês Bernard-Marie Koltès,  foi apresentada no final de tarde do último domingo (17), em uma casa em ruínas às margens da BR-392, KM 56. Dirigida por Rodrigo Rocha, a proposta é descentralizar o teatro, levar o público a outros lugares que possam contribuir na sua sensibilização, pesquisa que está desenvolvendo em seu TCC no curso de Teatro Licenciatura da UFPel. Funcionou. É verdade que a entrega visceral dos atores Martha Grill e Juliano Bohn Gass provavelmente teria emocionado mesmo em um espaço convencional, mas com certeza o “resultado” foi intensificado por diversos fatores... Ajudou o ritual percorrido pela plateia, que se deslocou até o Capão Seco, caminhou pelo campo até chegar à casa abandonada e se sentou em cadeiras portáteis ou no chão. Ajudou o por-do-sol, que serviu de iluminação natural - acabou no momento exato em que terminou a peça. Ajudou o ruído dos veículos que transitavam pela BR, seus sopros, secos, rompiam o silêncio absoluto da plateia, estarrecida com a performance. Ajudaram os grupos de quero-queros que cruzavam, de vez em quando, pelo céu, como se quisessem também eles fazer parte daquele momento especial. Ajudou um animal que entrou na última cena, nos momentos finais da peça. Ele (parecia uma lontra! não sei se era) apareceu ao fundo e correu um pouco, na direção dos dois irmãos, que estavam sentados em cadeiras, de costas para o público, selando sua reaproximação, inevitável. Chave de ouro para encerrar um trabalho que tocou e fez refletir sobre a fragilidade humana. Uma daquelas (poucas) performances que não se esquece e que faz a gente pensar: - Que bom que eu estava lá.

*Joice Lima é jornalista (UFSM), teatróloga (UFPel), atriz, diretora e dramaturga, integrante da Cia Pelotense de Repertório Teatral. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Histórias de uma Atriz Negra



Inicialmente, a história do teatro brasileira restringia os negros à plateia, quando podiam pagar, ou a personagens estereotipados, interpretados por atores brancos que maquiavam sua pele para interpretá-los. Obviamente que, envolto a isso, temos todo o contexto social brasileiro de uma época. Porém, foi graças ao pioneirismo de Abdias do Nascimento e Ruth de Souza, com o seu Teatro Experimental do Negro (TEM), criado em 1944, que esse panorama começou a ser modificado.

Em outro texto, já abordei a questão do papel do negro no teatro contemporâneo. Por esse motivo, não me deterei a ela aqui. Entretanto, não podemos esquecer e sempre deixar de lembrar a importância da atriz Ruth de Souza ao teatro brasileiro. Graças a sua coragem, determinação, talento e persistência, ela conseguiu consolidar sua carreira como uma das maiores atrizes brasileiras, além de abrir espaço para que muitas outras mulheres negras pudessem subir aos palcos como profissionais das artes cênicas, sendo respeitadas pela sua competência.

No dia 28 de setembro de 2012, foi apresentado, no Teatro do COP, o espetáculo “No Palco Ruth de Souza”. As atrizes Lucila Clemente e Kaya Rodrigues dividem o palco para contar a história de uma das figuras mais importantes da história recente do Brasil. O espetáculo em tom de memória, perfaz de maneira sintética a trajetória de carreira e vida pessoal de Ruth de Souza. O texto/concepção/direção/trilha sonora de Lucila Clemente e Josiane Acosta surgiu ainda quando as duas jovens atrizes estavam na faculdade de teatro, como seu trabalho de conclusão de curso. Talvez por esse motivo, se observe algumas fragilidades relativas a esses quesitos.

Não me aterei tanto a fazer uma minúcia técnica sobre os problemas existentes no espetáculo, em respeito à personagem tema da história. Entretanto, não posso deixar de comentar que a imaturidade artística das atrizes conferiu uma tonalidade de demasiada leveza à história de uma mulher que, com certeza, deve ter enfrentado e ainda enfrentar os piores preconceitos em relação ao seu percurso pessoal e profissional. Percebo que as atrizes desejaram fazer uma homenagem à Ruth e queriam que a peça tivesse um caráter alegre. No entanto, se fazia necessário prestar um pouco mais de atenção às dificuldades que ela enfrentou ao longo dos anos.

As projeções de vídeos com fotos e cenas de Ruth de Souza foram muito bem exploradas. Na verdade, a força cênica dessa atriz é tão grande que acabava criando um problema a Kaya e Lucila, quando terminavam os vídeos e voltávamos à cena teatral. A comparação acaba sendo inevitável e também não podemos esperar que duas atrizes tão jovens consigam se igualar à experiência de Ruth de Souza. Paradoxalmente, não quero dizer que as atrizes não sejam competentes. Muito pelo contrário, fazem valer a sua jovialidade e energia para segurarem esse espetáculo durante os quase 60 minutos de performance.

Por outro lado, vou citar apenas mais uma situação que se refere ao canto em teatro. Já comentei isso algumas vezes, pois acredito que o canto exige uma série de questões, tais como, técnica vocal, musicalidade, interpretação, emoção e etc... Entretanto, sempre temos que ter o discernimento das diferenças entre atores e cantores. Em um espetáculo de teatro, o ator pode cantar de maneira dissonante, com técnica falha, sem musicalidade, desde que isso esteja dentro de um contexto específico da história e do seu personagem. Caso contrário, apenas salientará a sua desafinação e falta de talento musical.

No caso desse espetáculo, as atrizes foram muito corajosas em cantar à capela em alguns momentos, talvez tentando mostrar um caráter  informal ao momento da peça. No entanto, estando em frente ao público, não há espaço para se utilizar a informalidade como defesa de nossas fragilidades técnicas. Acredito que os problemas observados nos momentos de canto, poderiam ser contornados se as atrizes fossem acompanhadas por músicos tocando ao vivo, já que um playback mecânico exigiria um potencial vocal muito maior.

Apesar de Pelotas ser uma cidade com uma expressiva população negra, não vi muitos negros no teatro naquela noite. Aliás, mesmo o espetáculo sendo gratuito, o teatro não estava nem cheio. Quem perdeu foi o público que deixou de ver uma apresentação teatral que contou a história de uma das atrizes mais importantes desse país.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.
 vagnervarg@yahoo.com.br www.ccetp.blogspot.com

O Lugar do Negro no Teatro Brasileiro Contemporâneo




Atualmente, com o avanço das discussões sobre a discriminação étnica e das Leis anti-racismo, a população negra começou a reivindicar os seus direitos perante à sociedade brasileira. No entanto, no que se refere ao mercado de trabalho para atores negros, apesar de terem ganho um pouco de visibilidade, esta ainda é ínfima, comparada à proporção de negros no contingente populacional brasileiro.

Embora algumas pessoas justifiquem que estejam vendo mais atores negros nas telenovelas fazendo personagens que não sejam apenas de escravos, motoristas, criminosos e empregadas domésticas, o padrão estético determinado pela grande mídia para a escolha desse elenco se pauta em traços de beleza caucasianos. Essas características são bastante discretas, mas vão desde à tessitura vocal ao formato de nariz, cabelos, tom de pele, tipo físico e etc... Além disso, os personagens costumam vir carregados de uma justificativa étnica para lá estarem, ou seja, se for um médico negro, haverá um conflito em torno da cor de sua pele, não sendo possível que apenas seja um médico que por ventura é negro.

 Outra justificativa que os defensores da mídia podem utilizar, se refere ao fato de que existem muitos atores negros em evidência na televisão brasileira. Porém, comparando a realidade étnica brasileira e a diversidade que se observa nas ruas, você continuará pensando que a proporção de atores negros na TV reflete à realidade brasileira? Ou será apenas uma obrigatoriedade para cumprir uma mera quota de conformismo com as oportunidades igualitárias? Será que os negros não geram audiência e consumo? O que ocorrerá no dia em que os negros resolverem ter a coragem para mudar de canal e buscarem uma programação que realmente os inclua e os trate de maneira igualitária?

No entanto, meu foco aqui não se direciona à TV. Todavia, não podemos falar sobre oportunidades de trabalho para atores negros, sem citarmos as mídias de massa. Nesse sentido, ainda refiro os personagens negros que atualmente aparecem no cinema nacional. As mesmas reflexões que citei anteriormente se referem à sétima arte. Contudo, acredito que, no que tange aos personagens, o cinema brasileiro ainda está um passo atrás, já que grande parte dos filmes brasileiros colocam o negro apenas numa situação marginalizada. Não quero dizer com isso que essa realidade não seja verossímil. Porém, será que é a única?

Quando falamos em teatro, o ponto de análise se altera, pois as imposições midiáticas não chegam a afetar a grande produção teatral. Entretanto, no que se refere ao teatro comercial, em especial àquele produzido no grande eixo Rio-São Paulo, as normatizações estéticas da televisão costumam determinar as escolhas de elenco. Apesar disso, devido ao caráter democrático que o teatro costuma apresentar, temos a possibilidade de ver um contingente maior de atores negros em cena. Mesmo assim, a proporção de atores brancos costuma ser maior.

Essa situação nos leva a refletir sobre quais motivos tornam esse fato uma realidade. Obviamente, não podemos deixar de ter em mente que há séculos a população negra sofre um processo de discriminação, exclusão e marginalização étnica em nossa sociedade. Além disso, apenas há algumas décadas estão ocorrendo avanços civis sobre esse assunto. Nesse sentido, devemos sempre ponderar sobre as oportunidades num sentido global, uma vez que envolvem aspectos que não se relacionam somente ao mercado de trabalho artístico, mas também à educação, moradia, saneamento e etc... Muitas pessoas podem contestar dizendo que esses fatores não estão diretamente relacionados ao desempenho profissional no teatro. Todavia, devemos ponderar que, do nosso confortável ponto de análise, as condições sociais podem ser as mesmas para quaisquer etnias. No entanto, ao colocarmos o advento histórico nessa balança, será que não teríamos um lado étnico mais sobrecarregado?

Desse modo, a luta pela sobrevivência e pelo espaço igualitário na sociedade acaba levando os negros a buscarem alternativas mais imediatas de subsistência. Além disso, as oportunidades artísticas costumam estar localizadas em pontos sociais distantes da realidade dessas pessoas não somente no aspecto geográfico, como também de identificação. Talvez os motivos que expliquem o pouco contingente de atores negros nos palcos brasileiros, em relação à proporção populacional, estejam ligados a esses fatores.

Sob esse ponto de vista, também gostaria de salientar a escassez de uma produção dramatúrgica voltada ao teatro que contemple temas relacionados à etnia negra que não sejam aqueles que falem apenas de sua marginalização social, escravidão ou as mesmas abordagens dadas pela TV e pelo cinema nacional. Da mesma forma que os gregos e outros tantos povos souberam transformar suas mitologias em teatro, a mitologia brasileira, de origem africana também deveria receber esse tratamento.

Obviamente, que os fatos históricos, a colonização brasileira e os conceitos ainda arraigados em princípios de uma moralidade religiosa dos tempos em que o Brasil ainda não era um estado laico segundo à Lei, abarcaram todo um processo de opressão para manter a cultura negra longe dos limites história oral. Nesse sentido, acredito que essas histórias ainda precisam ser escritas e firmadas na dramaturgia teatral brasileira.

Porém, gostaria de salientar que esse discurso não está demarcando o ramo de atuação dos negros para espetáculos que abordem suas origens étnicas e  religiosas. Muito pelo contrário, acredito que esse pode ser um dos caminhos de identificação para atrair uma fatia de público que costuma estar à margem das histórias que lhes são apresentadas e a partir daí, quem sabe, oportunizar-lhes uma perspectiva de identificação e auto-estima. Além disso, também acredito que os atores negros devam lutar pelo seu espaço para fazerem personagens que não venham com a descrição “negro” no texto original, pois se a característica étnica não é o conflito principal daquele personagem em determinada história, não existem limitações para que apenas as pessoas de origem caucasiana tenham o direito de representá-los.

Contudo, não podemos deixar de ponderar sobre o aspecto de que sempre é colocado sobre os ombros da população negra a responsabilidade por lutarem pelos seus direitos e espaços na sociedade. Esse ponto de vista é confortável e cômodo aos indivíduos de outras origens étnicas, uma vez que, numa análise simplista, não precisariam alterar em nada suas condutas sociais e profissionais para permitirem a igualdade de direitos e oportunidades para todos os cidadãos. Desse modo, reitero o foco desse texto ao mercado teatral para os atores negros no Brasil, uma vez que não devemos jogar a responsabilidade da pouca proporção de atores negros nos palcos, apenas ao fato deles não lutarem pelo seu espaço nesse mercado de trabalho. Essa seria uma visão alienada e ingênua. Cabe sim aos espectadores negros exigirem sua retratação nos palcos, aos atores negros terem o seu devido espaço, mas acima de tudo, aos artistas que trabalham nesse mercado abrirem as oportunidades para que os personagens sejam tratados apenas como seres humanos. Sendo assim, a origem étnica do profissional que o interpretará será desconsiderada, já que o personagem será tratado pela sua essência humana.

No entanto, não quero que as duas últimas frases do parágrafo anterior sejam distorcidas, uma vez que essa foi a justificativa para que durante muitos anos atores brancos maquiassem a sua pele com o intuito de interpretarem personagens negros. Quando falo em personagens negros, me refiro a histórias em que o contexto étnico dessa personagem se torna a essência de seu mote conflitual. Realmente, o palco é o lugar mais democrático, onde todos artistas podem ser quem a história precisar que eles sejam. Mas, isso não quer dizer que esse argumento se torne uma justificativa para enfatizar o processo de exclusão social de raiz étnica que temos em nosso país. Sendo assim, quando o foco da existência daquele personagem não for o conflito social gerado em função da sua etnia, não haveria justificativa para que os personagens fossem pensados numa lógica caucasiana. Com isso, enfatizo que a escassez de atores negros nos palcos também se deve à necessidade de mudança na perspectiva que os próprios artistas do teatro têm em relação aos personagens das peças de teatro.

Portanto, gostaria de finalizar esse texto, em que levantei algumas reflexões sobre o lugar do negro no teatro brasileiro contemporâneo, reiterando a necessidade de que sua história e tradições sejam tradas com o respeito e a importância que merecem, sem olhar vertical determinado pela a cultura caucasiana nos palcos, TV e cinemas do Brasil. Além disso, também saliento o fato de que os negros precisam fazer valer o seu valor como geradores de consumo, audiência e presença na sociedade. Dessa forma, acredito que a ponderação sobre os fatos aqui levantados possam ser apenas alguns poucos pontos de vista que nos levem a refletir sobre número de atores negros que vemos nos palcos brasileiros.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.
 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Hibridismo, Ousadia e Arte Tendo o Teatro como Cenário e Contexto



            No dia 14 de setembro de 2012, os atores Ana Laura Barros Paiva, Lumilan Noda, Tai Fernandes e Tatiana Duarte, apresentaram o espetáculo “Olhar do Outro” em frente ao Theatro Sete de Abril. Já que o único teatro público da cidade de Pelotas está fechado, o grupo aproveitou a oportunidade para levar o seu trabalho para a rua, utilizando a fachada do prédio como seu cenário e o fazer artístico como mote de suas discussões.

Tendo o texto “A Gaivota”, de Anton Tchekhov, como referencial inicial de pesquisa, a diretora Alexandra Dias nos propõe um espetáculo que dialoga com outras linguagens artísticas, rompendo com as barreiras limitantes entre as diversas artes. Além do texto do escritor russo, o grupo utilizou textos de Rubens Figueiredo e Robert Patrick para compor a dramaturgia do espetáculo.  Além disso, a história era costurada por momentos, relatos e vivências pessoais de cada ator, dialogando com as passagens textuais dessas obras literárias, com o intuito de refletirem sobre o fazer teatral e a condição do artista no mundo contemporâneo.

Com um caráter de intervenção cênica no espaço público da cidade, o grupo propõe aos espectadores, além de outras abordagens, a discussão sobre qual o papel e o lugar do ator na sociedade. Essas reflexões acabavam sendo potencializadas pelo fato de estarmos assistindo a todos esses fatos, tendo como cenário de fundo um belo teatro, construído no século XIX, que hoje permanece fechado e representando o descaso que as artes cênicas sofrem nas políticas atuais.

O trabalho que os atores tiveram em se expor da maneira corajosa como fizeram, desvelando suas fraquezas pessoais, propiciou aos espectadores uma aproximação de histórias de vida que se identificam com os conflitos dos personagens literários. Esse tipo de diálogo entre ficção e realidade, relatos pessoais e textos dramatúrgicos vem sendo utilizado em diversos trabalhos artísticos que desejam desassossegar o espectador do seu olhar viciado nas estruturas formais e tradicionais das artes. Essas propostas além de oferecem ao público uma relação mais próxima com o contexto representado, lhe fomentam uma percepção diferenciada, um outro modo de encarar e se relacionar com os mais diversos tipos de situações que acontecem a sua volta.

 Nesse sentido, muitas vezes um espetáculo não precisa de palavras e expressões textuais, uma vez que suas imagens podem dar vazão a uma série de abordagens e os artistas não necessitam delimitá-las dentro de um contexto definido. Por esse motivo, a opção pode ser pela exposição dessas imagens e deixá-las para que o público vá compondo os espaços lacunares, conforme é tocado naquele momento.

Sendo assim, o trabalho em questão nos expôs uma série de imagens lindas, não apenas nas projeções, mas também na movimentação dos atores e na maneira como eles se relacionavam com todos os signos que estavam ali sendo expostos. Desse modo, não posso deixar de elogiar a maneira como o grupo se apropriou e re-significou alguns quadros surrealistas, do pintor belga René Magritte, brindando a plateia com outras possibilidades de leituras daquelas obras e do peso que essas imagens imprimiam no contexto do espetáculo.

 O figurino elaborado por Larissa Martins vinha muito ao encontro do contexto da peça do dramaturgo russo. Mas, além disso, os trajes extremamente belos, elegantes e bem acabados já nos chamavam a atenção no início do espetáculo quando os atores vinham chegando à esplanada em frente ao teatro. Nesse momento, poderíamos traçar relações sobre a tradição histórica que a população dessa cidade tinha em se vestir bem para ir ao teatro durante o século XIX e início do século XX. Porém, agora, essas pessoas disporiam apenas do espaço ao ar livre para apreciar o espetáculo. Apesar dessa relação textual e da percepção crítica sobre a situação, os figurinos também dialogavam com as obras do artista belga utilizado como referência e estavam extremamente adaptados à funcionalidade cênica de que havia necessidade.

A trilha sonora original e os vídeos de Thiago Rodeghiero compunham um ambiente no qual, ao mesmo tempo em que intervinham na paisagem urbana com as projeções, traziam o foco cênico para as discussões que os atores estavam propondo. A polifonia de informações da performance era sublinhada e ressaltada pelas projeções muito pertinentes que ajudavam a ampliar o leque de leitura das imagens apresentadas. Além disso, o crédito e êxito das projeções também se devem ao fato de fugirem do lugar comum e simplista que vemos em algumas peças de teatro. A utilização de filmagem e projeção ao vivo também foi muito interessante para os espectadores observarem o diálogo entre duas linguagens, enquanto a atriz Tatiana Duarte apresentava um dos textos mais lindos e difíceis de “A Gaivota”.

A maquiagem utilizada pelo grupo foi muito adequada ao contexto da concepção de encenação e à luminosidade que teriam nessa apresentação na rua. A iluminação de Juliano Bonh Gass fez mágica e mostrou muita criatividade para adaptar os recursos técnicos para um local ao ar livre que não dispõe de estrutura técnica para apresentações teatrais à noite. Nesse sentido, todos os recursos foram muito bem utilizados colaborando para a ambientação e contexto cênico.

O elenco inteiro está de parabéns pelas suas atuações. Mesmo sendo atores tão jovens, trabalhando em um espetáculo em que a performance se direciona à multiplicidade de imagens que compõem à plasticidade cênica, conseguiram trazer seus universos pessoais para a identificação dos conflitos das personagens daquelas histórias. Além disso, apesar das adversidades, os atores conseguiram segurar o espetáculo, mesmo sofrendo interferências desagradáveis de delinquentes que tentaram prejudicar a apresentação.

Mais uma vez, sou obrigado a falar da falta de educação de algumas pessoas em relação aos espetáculos que são apresentados em Pelotas. Nesse caso, por ser uma performance ao ar livre, os artistas já sabem que estarão expostos a quaisquer adversidades que possam vir a acontecer. Entretanto, isso não justifica que algumas pessoas se julguem donas do espaço público e se outorguem o direito de agredirem não apenas quem está se apresentando, como também quem está assistindo àquela obra.

O fato em questão se refere a mais de uma dúzia de jovens que estavam naquele local e não queriam permitir que houvesse uma apresentação teatral naquele espaço, pois desejavam utilizá-lo para dançar e cantar rap e hip hop. Em primeiro lugar, a Praça Cel. Pedro Osório é um espaço imenso e essas pessoas poderiam ter ido se expressar em outro ponto da praça, uma vez que o grupo de atores possuía liberação da prefeitura para apresentar o espetáculo naquele local, ou, simplesmente, se sentarem e apreciarem o evento. Além disso, a quantidade de bebidas alcoólicas que aqueles jovens faziam questão de mostrar que estavam ingerindo, não nos ilustrava que o seu intuito era apenas de expressar as suas músicas.

Não foram poucas as vezes que eles gritaram e tentaram atrapalhar a encenação, dizendo que queriam rap e se utilizavam do fato desse tipo de expressão estar associada às pessoas de classe social menos favorecida para tentarem intimidar a plateia a não reclamar. Acredito que seja muito fácil e cômodo se colocar no lugar e no papel de injustiçado quando não se respeita o espaço dos outros. Pela quantidade de bebidas alcoólicas que passavam de mão em mão e as dimensões espaciais da praça, também não acredito que aqueles jovens estivessem apenas com o intuito de se relacionarem com a arte. Antes de tudo, se desejam ter o seu espaço, precisam saber respeitar o olhar do outro em querer desfrutar de outras expressões artísticas.

Apesar de a plateia ter presenteado esses jovens com a indiferença, para que pudessem assistir ao espetáculo, financiado pelo poder público, acredito que os espectadores pelotenses não possam continuar sendo expostos a esse tipo de situação nas apresentações ao ar livre. Sendo assim, saliento o meu protesto quanto à ausência de guardas municipais e/ou da brigada militar durante o evento.

Essa interferência foi tirada de letra pelo grupo de artistas e acabou se tornando apenas mais um ruído desagradável que vinha de fora do ambiente cênico. Mas, em nada afetaram à qualidade do trabalho que ali foi apresentado.

Portanto, considero que a proposta trazida em “Olhar do Outro” seja de grande valia para as discussões do papel dos atores na nossa cidade e da maneira como as políticas culturais não vêem tendo a devida importância nesse município. Nesse sentido, espero que o grupo ainda possa apresentar esse espetáculo, de maneira segura, em outras ocasiões para que mais pessoas possam ter contato com esse diálogo híbrido entre as artes.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.
  

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Chapitô e o Teatro Físico Português


A companhia Chapitô, criada há 25 anos em Portugal, esteve em Porto Alegre/RS, de 05 à 07 de setembro, apresentando o espetáculo “Cão Que Morre Não Ladra”, no Teatro do SESC. Criado por Teresa Ricou, o Chapitô trabalha ativamente na formação artística e social de jovens de classes menos favorecidas.

O trabalho desenvolvido por essa companhia não se restringe apenas ao fazer artístico e à formação dos seus alunos. Agregado a esse coletivo, existem diversas entidades realizando atividades de cunho social, somando colaborações da iniciativa privada nacional, internacional e também de poderes públicos. Nesse caso, a arte é o meio catalisador para esse diálogo. Muito embora, nos dias de hoje, o Chapitô já conte com certa estrutura, isso foi construído com muito trabalho, seriedade e comprometimento social ao longo dos anos. O que ressaltou o trabalho desses artistas foi o fato de não ficarem apenas no limiar teórico e do embasamento de discursos polidos, o seu trabalho obteve o devido valor, dada à qualidade artística das suas produções.

As ações que esses artistas realizam para a integração de jovens em situação de risco e vulnerabilidade social por meio das artes é louvável e merece todo o nosso respeito. Friso e saliento bastante o trabalho do Chapitô, pois suas ações não têm nenhum caráter assistencialista, como vemos comumente em diversos trabalhos realizados pelo Brasil, onde o Governo libera grande soma de investimentos para atividades com objetivos semelhantes e o que observamos são olhares verticais assistencialistas do oportunismo de seus realizadores.

As técnicas circenses são o local de interlocução no processo formativo dos artistas oriundos do Chapitô. Entretanto, a multidisciplinaridade se faz presente e podemos observar claramente no corpo dos seus atores técnicas que advém do mimo, dança, teatro físico em geral, circo, clown, Commedia Dell Arte  e etc... O corpo do ator é o ponto de partida para a comunicação com os espectadores e para a criação das suas matrizes de trabalho nos espetáculos realizados pela companhia.

O espetáculo que veio a essa edição do festival Porto Alegre Em Cena, contava a história de uma família que possuía uma maneira muito peculiar de lidar com a morte e de como dar essa notícia aos outros membros da família. Em um tom de humor bastante ácido, a dramaturgia nos conduzia por um terreno absurdo, de uma família despedaçada e partida ao meio pela tragédia. Porém, finalmente reunida.

Logo de início, o público já é levado às gargalhadas dado o jogo cênico entre os atores Jorge Cruz, Marta Cerqueira e Tiago Viegas, criando situações engraçadas sem a necessidade de muitas palavras para que o público se envolvesse na cena rapidamente. Ao falar de velocidade, não posso deixar de enaltecer o ritmo, time de comédia e sintonia entre o elenco. Os resultados de contracenação que esses atores conseguem durante a peça é impressionante, sabendo dosar as nuances de momentos acelerados e mais calmos da história. Além disso, a confiança e o jogo criado e sustentado pelo elenco em cena se tornavam muito bonitos de se ver, pois ali ficava bem claro um dos princípios básicos da confiança de um ator no seu colega durante o evento teatral: a busca da segurança nos olhos do parceiro em cena.

A relação corporal entre o elenco era evidente e a maneira como ela conduzia o espetáculo propiciava aos espectadores um outro tipo de perspectiva de como uma peça de teatro pode fugir às convenções. Apesar do espetáculo não se propor a apresentar uma inovação estética, nem muito menos evidenciar a virtuose técnica dos seus artistas, cito aquela questão na frase anterior, pois o elenco soube dosar com sutileza todo o seu repertório físico, sem fazê-lo desaparecer em cena. Aliás, para quem conhece, saltava aos olhos o domínio que os atores tinham de todas as técnicas referidas anteriormente. Estava tudo ali. Porém, sem levar o exercício à cena, à mera exibição de técnicas, o teatro físico se fazia presente, mas estava tão coerentemente posto dentro de um contexto que o público em geral podia se envolver na história acreditando na veracidade daquelas personagens, mesmo que em uma situação absurda.

Aos que estudam alguma das vertentes do teatro físico, esse espetáculo foi uma aula de como se utilizar todas as ferramentas exaustivamente trabalhadas nas salas de ensaio e trazê-las para uma atuação realista, em um texto que dialoga com o teatro do absurdo. Aí reside a grande dificuldade desse trabalho e o louvor que devemos oferecer ao elenco, pois a dosagem foi precisa. Ressalto ainda as variações de tensões utilizadas pelos atores, quando manipulados pelos seus colegas, em alguns momentos se utilizando de um “relaxamento conduzido” e em outros de uma “rigidez mecânica”, propiciando momentos hilários aos espectadores na medida em que íamos acompanhando o destino físico das personagens.

Além disso, não posso deixar de falar em precisão. As marcações físicas dos atores eram muito precisas e necessitavam que assim o fosse, pois o risco de acidentes em cena é enorme. Mesmo quando nos parece que os atores não estão alertas, eles nos surpreendem com uma prontidão imediata. Esse refinamento de trabalho é muito difícil de ser atingido.

Outro aspecto que gostaria de sublinhar, se refere à técnica vocal dos atores. Cabe aqui fazer uma reflexão, pois não é a primeira vez que assisto a um espetáculo de teatro vindo de Portugal e sempre fico impressionado de como os atores portugueses falam bem em cena. Apesar das diferenças entre a pronúncia portuguesa e brasileira, sempre observo que os atores portugueses sabem fazer os seus textos serem bem ouvidos, bem compreendidos e muito bem articulados. Essa observação sempre me chama atenção ao fato de que os atores brasileiros não dão a devida atenção à técnica vocal ou se equivocam ao utilizarem preparações baseadas em empirismos intuitivos de alguns “mestres”. Não é incomum observarmos um espetáculo de teatro brasileiro onde algumas frases ditas pelos atores fujam a nossa compreensão, se percam numa dicção e emissão falhas, ou o que, infelizmente, acontece e muito: os atores falam, sem observar, significar e compreenderem o porquê suas personagens estão dizendo aquilo.

A direção de John Moiwat, com assistência de Katrina Brown, teve um papel muito importante ao saber conduzir o potencial técnico dos atores para marcações de cena limpas e muito precisas. Mesmo com uma temática que, por vezes, adquira um caráter pesado no espetáculo, a direção soube dosar esses momentos e explorar as situações nos momentos adequados. Além disso, também foi utilizado um recurso de explorar cenas no back stage, o que pode ser um risco, já que a tendência do público é se dispersar. Porém, quando os acontecimentos se direcionavam para as coxias, o público acabava ficando curioso sobre o que viria e não chegava a se dispersar, uma vez que essas cenas não se prolongavam.

Acredito que a direção poderia ter dado um pouco mais de ênfase na construção interna das personagens e do estímulo à sentimentalidade entre as relações daquela família. Apesar de a proposta explorar o humor e o dinamismo físico dos atores imprimir toda a interlocução cênica, acredito que o diretor poderia ter estimulado os seus atores um pouco mais para darem o devido peso que algumas situações exigiam, como por exemplo, o momento em que o filho revive o Natal em família e seus pais já estão mortos. Mesmo em se tratando de um contexto absurdo e sem desejarmos cair nas armadilhas da pieguice, senti falta desse refinamento na busca pelas emoções internas das personagens.

A cenografia de Kevin Plum nos propunha um ambiente cênico limpo, apenas com os itens mínimos e funcionais necessários à proposta de jogo cênico. Uma mesa em proporções fora do comum ficava localizada no centro de cena, sendo utilizada como suporte para as mais variadas situações. O espetáculo contava ainda com gravação e edição de áudio de Tiago Cerqueira e iluminação de Luís Moreira e Paulo Cunha. Todos os elementos cênicos foram utilizados de maneira limpa, propiciando que o foco da encenação ressaltasse o trabalho físico dos atores.

Portanto, apesar do Chapitô não ser muito conhecido no Brasil, acredito que a vinda desse grupo ao 19º Porto Alegre Em Cena vem a propor uma aproximação maior entre as culturas desses dois países ligados historicamente. Além disso, considero ser de extrema importância a vinda dessa companhia ao nosso estado não apenas pelo seu valor artístico. Mas, também por podermos observar o trabalho competente de um coletivo de artistas muito engajados nas causas sociais do seu país. Quiçá, ano que vem a organização do Porto Alegre em Cena nos brinda com um maior número de espetáculos em língua portuguesa vindos de outros países!

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Porto Alegre Em Cena e um Público Ávido por Teatro


Em sua décima nona edição, esse festival internacional de artes cênicas invade a capital e, mais uma vez, firma o seu sucesso, como um dos eventos culturais mais importantes do Brasil. De 04 à 24 de setembro de 2012 serão apresentados diversos espetáculos de dança, teatro, música, oficinas, cursos, palestras, workshops, exposições e etc...

Para quem puder se deslocar até à capital do nosso estado ou para aqueles que lá estão, não faltarão opções sobre o que assistir. A edição desse ano traz vários espetáculos do Uruguay, além de trabalhos vindos da Israel, Argentina, Portugal, Alemanha e França. Obviamente, esse festival não se faz apenas com espetáculos estrangeiros, o público ainda tem a possibilidade de assistir diversos trabalhos oriundos de vários estados brasileiros, nos oferecendo um panorama diversificado da produção artística que foi selecionada pela curadoria do Em Cena.

Nos dias em que lá estive, me surpreendi com o tamanho das filas para entrar nos teatros, além das muitas pessoas que, como eu, se aglomeravam em frente às bilheterias pra comprar ingressos de última hora. Realmente, conforme a organização do evento informou no material de divulgação, as bilheterias não abrem na hora dos espetáculos para a venda de ingressos naquele momento. Apenas as pessoas que já haviam comprado as entradas pela internet estavam retirando os seus tickets. Porém, como todo grande evento, sempre são distribuídos muitos ingressos cortesias, algumas pessoas também acabam comprando em excesso, ocorrem desistências e etc... Nessas situações, esses lugares costumam ser vendidos ou até mesmo ofertados pelos próprios espectadores àquelas pessoas que não compraram seus ingressos com antecedência.

Nos teatros por onde circulei e nos postos de vendas de ingressos, observei que o público queria muito ir ao teatro, mesmo sem conhecer o trabalho que seria apresentado, o seu desejo se refletia apenas pelo prazer de irem ao teatro. Somente esse aspecto já nos ilustra o quanto a população gosta de frequentar eventos culturais e do quanto eles lhes são importantes. Entretanto, não podemos esquecer que estamos em ano eleitoral e a cultura não costuma entrar nos discursos dos políticos, nem mesmo ser incluída com ações específicas para implementar, fomentar e oferecer dignidade de trabalho aos profissionais dessa área.

A cultura não oferece emprego apenas para os artistas e profissionais técnicos envolvidos nos espetáculos, todo o comércio local lucra com os turistas que se deslocam até esses espaços, além do mercado informal que se forma à volta dos teatros, proporcionando trabalho e fonte de renda a diversas famílias. Com certeza, Porto Alegre ganha muito durante o Em Cena, não apenas no aspecto comercial, mas também na oferta cultural aos seus moradores e visitantes.

Infelizmente, existem poucas cidades no Brasil onde ocorre uma comunhão de ações como essas para incentivar a cultura e oferecer tantos espetáculos à população. Alguns poderiam justificar a ausência desses eventos devido ao alto custo que uma produção dessas envolve. Entretanto, com trabalho e muita força de vontade se consegue obter o devido sucesso. Porém, para que isso seja possível, há a necessidade de vontade política, investimentos da iniciativa privada, abertura e apoio da mídia, além de mão de obra competente para organizar um festival dessa dimensão. Também não podemos deixar de destacar que o Porto Alegre Em Cena não iniciou nas proporções em que hoje está. Um evento desse tamanho necessita uma construção eficiente e sólida ao longo dos anos. Aqui, nos fica exposto o seu sucesso consolidado como um dos eventos culturais mais importantes do país.

Além disso, ouvi algumas pessoas reclamando dos valores cobrados pelos ingressos, pois, segundo elas, estavam muito altos e a grande maioria da população não teria condições de arcar com esses custos. Sempre que ouço esse tipo de declaração, eu me pergunto sobre os valores que as pessoas pagam para irem aos estádios de futebol, festas, baladas, nos gastos que têm com bebidas alcoólicas, cigarros, alimentação e transporte nesses locais. Porém, não costumamos ouvir as pessoas dizerem que não vão em tal boate ou estádio de futebol porque os custos totais dessa ida serão muito altos. As pessoas economizam, juntam dinheiro, ou até mesmo pagam, sem reclamar. Entretanto, quando falamos em eventos culturais, esse tipo de argumentação sempre vem à tona, trazendo consigo uma falsa justificativa de que os eventos culturais são elitistas.

A cultura, nesse caso as artes cênicas em geral, empregam muitos profissionais e esses trabalhadores necessitam ser remunerados dignamente pelas atividades que desenvolvem. Quando um espectador está pagando para assistir a um espetáculo, ele não está entregando o seu dinheiro em vão, ele está contribuindo com o salário de todas as pessoas envolvidas naquele trabalho que está ali sendo apresentado e lhe propiciando entretenimento, diversão, reflexão, conhecimento, cultura e etc...

Bom, termino esse texto por aqui, pois em breve trarei novas “notícias do front” e as minhas percepções sobre os espetáculos que assisti. Além disso, não posso deixar de terminar esse texto sem pedir aos leitores que, quando forem votar nesse ano, pensem e reflitam bem, se o candidato que estão escolhendo lhe representa e se suas propostas não são meras promessas de campanha para iludir a todos com os chavões antigos de caça votos fáceis. A minha bandeira é a cultura e assim sempre será, pois acredito nas contribuições positivas que ela propicia à sociedade como um todo. Agora, entrego a vocês essas reflexões.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.