sexta-feira, 31 de maio de 2013

Experiências do Théâtre du Soleil para um Público Privilegiado


O Théâtre du Soleil, dirigido por Ariane Mnouchkine, é um dos melhores e mais importantes grupos de teatro do mundo. Fundado em 1970, na Cartoucherie de Vincenes, em Paris, o Théâtre du Soleil ficou famoso mundialmente pelo primor de seus espetáculos.

Com forte influência do teatro oriental, Ariane e sua troupe também têm um forte compromisso político e social em seus espetáculos. Os últimos três espetáculos do Théâtre du Soleil vieram ao Brasil permitindo que o público local pudesse apreciar de perto o trabalho de artistas tão importantes no cenário teatral. Não há o que se dizer sobre esse grupo, a não ser ressaltar a excelência do trabalho dos atores, dramaturgos, músicos, cenógrafos, figurinistas, maquiadores e de toda a equipe técnica, liderados pela maravilhosa Ariane Mnouchkine. Vale à pena vocês guardarem esse nome para que, na próxima oportunidade, possam assistir a um dos espetáculos desse grupo francês.

Porém, o público pelotense teve o privilégio de assistir a Palavra de Ator, apresentada no auditório Jandir Zanotelli, da UCPEL, no dia 29 de abril de 2013, com entrada franca. Esse espetáculo, trazido pelo SESC Pelotas, contava com dois artistas que integram o elenco do Théâtre du Soleil, a brasileira Aline Borsari e o experiente Maurice Durozier.

O espetáculo, em tom didático, conta a história de um ator que vai respondendo às perguntas de sua pupila sobre o que é teatro e o que representa ser ator. Aline se coloca como “escada” para que Maurice vá aos poucos relatando um pouco da sua experiência como ator e de suas considerações sobre a carreira artística, baseadas em suas vivências junto a um dos mais importantes grupos de teatro do mundo.

A experiência foi válida não somente por estarmos diante de um grande artista, mas pelo caráter didático com que ele foi explicando aos presentes o que representa a profissão dos atores, como é o seu trabalho e quais os princípios éticos que devem norteá-la. Foi uma aula, principalmente, aos atores novatos, àquelas pessoas que apreciam a arte, àquelas que trabalham em áreas relacionadas ao teatro, mas que ou não tiveram uma carreira artística, ou estão dando os seus primeiros passos nesse sentido.

Ouvir as declarações de um ator que traz em si a experiência dos palcos gravadas em seu corpo supera qualquer discurso teórico sobre a arte teatral, pois ali está alguém que realmente vive essa arte, a mantém viva e pulsante nos palcos do mundo inteiro. Considero que o público presente saiu dali contente por ter tido a oportunidade de conhecer um ator tão importante como Maurice Durozier.

Tomara que um dia a cidade de Pelotas possa ter a oportunidade de trazer algum espetáculo do Théâtre du Soleil para o seu público, assim como as cidades de São Leopoldo e Porto Alegre já tiveram. Para aqueles que desconhecem o trabalho desse grupo de teatro, lhes deixo a indicação do site deles: http://www.theatre-du-soleil.fr

Vagner Vargas
Ator – DRT: 6606
Crítico de Teatro


Ói Nóis Aqui Traveiz e o seu Amargo Santo da Purificação



Em um final de tarde escaldante do dia 16 de dezembro de 2012, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz apresentou o espetáculo O Amargo Santo da Purificação no largo do Mercado Público, ao lado da Prefeitura de Pelotas. Essa não foi a primeira vez que o espetáculo esteve na cidade, nem tão pouco a primeira vez que eu o assisti. No entanto, essa foi a oportunidade em que pude ficar mais próximo dos atores, já que anteriormente havia assistido a peça de longe, no centro da cidade de São Paulo.

O espetáculo é uma criação coletiva do grupo porto alegrense e tem no elenco os atuadores Paulo Flores, Tânia Farias, Pedro Kinast De Camillis, Clélio Cardoso, Marta Haas, Edgar Alves, Roberto Corbo, Sandra Steil, Paula Carvalho, Eugênio Barbosa, Lucio Hallal, Paula Lages, Déia Alencar, Alex Pantera, Karina Sieben, Jorje Gil, Aline Ferraz, Eduardo Cardoso, Raquel Zepka, Caroline Vetori, Anelise Vargas, Letícia Virtuoso, Renan Leandro, Alessandro Müller e Jeferson Cabral. Elogiar o exímio cuidado em todos os detalhes que compreendem as encenações do Ói Nóis Aqui Traveiz é uma redundância. Mas, não devemos deixar que tecer tais comentários, uma vez que este não é apenas um dos melhores grupos de teatro do nosso país. O Ói Nóis é um dos mais importantes grupos de teatro do mundo, reconhecido internacionalmente pela qualidade artística dos seus trabalhos, assim como do seu forte engajamento político.

O Ói Nóis desenvolve uma série de atividades culturais da cidade de Porto Alegre, levando a sua proposta pedagógica que alia a formação crítica e política dos indivíduos com o que há de melhor na instrumentalização artística no nosso país. Não bastasse isso, como esse grupo é formado, antes de tudo, por artistas, o seu foco está sempre na arte. Nesse caso, no teatro. Não apenas no aprofundamento teórico, mas na sua experimentação e criação prática com montagens teatrais de extrema qualidade.

Em O Amargo Santo da Purificação, com dramaturgia construída coletivamente pela tribo a partir dos poemas de Carlos Marighella, a tribo conta a história de um herói popular que os setores dominantes do nosso país tentaram banir durante o período de ditadura. A temática pode parecer forte de mais para um espetáculo de rua. Mas, é justamente a seriedade e a ética com o que o grupo trata desta temática que faz com que a peça prenda a atenção dos espectadores em plena rua.

Uma obra de arte no nível dos maiores artistas de todos os tempos, assim podemos definir esse espetáculo. Pode parecer exagero para alguns. Entretanto, creio que aqueles que tiveram o prazer de assisti-los comungam da mesma opinião.

A identidade visual que o grupo traz aos figurinos, maquiagem, elementos de cena, bonecos, assim como nas enormes estruturas que surgem na nossa frente, são fantásticos. Há uma unidade estética naquilo que é construído, apesar de observarmos uma infinidade de referenciais que levaram o grupo a escolha dos mínimos detalhes. Essa sofisticação criativa eleva o trabalho do grupo a um nível de excelência, mas acima de tudo, reflete o quanto eles respeitam e valorizam os seus espectadores.

O trabalho físico dos atores

Vagner Vargas
Ator – DRT:6606
Crítico de teatro


O Dia em que Donizetti se Contorceu


Espetáculos de ópera continuam tendo um público expressivo independentemente da cidade em que sejam apresentados. Alguns preconceituosos e desconhecedores dessa linguagem artística podem comumente proferir comentários considerando-a ultrapassada ou desinteressante aos espectadores contemporâneos. Entretanto, seus parcos argumentos vêem de encontro à postura do público pelotense.

A relação histórica de apreço que o público de Pelotas tem com a ópera permanece forte até os dias de hoje. Nos últimos anos, nossa cidade tem recebido espetáculos de ópera pelo menos uma vez ao ano, com a plateia lotada e a corrida por ingressos faz com que eles se esgotem em poucas horas após serem disponibilizados aos espectadores.

Essa situação também foi observada para a ópera Il Campanello, de Gaetano Donizetti, apresentada em 16 de janeiro de 2013, no Theatro Guarany, dentro da programação do III Festival Internacional SESC de Música. Essa peça é considerada como sendo uma das mais engraçadas de Donizetti e conta a história de Enrico, um homem que promove diversas peripécias para atrapalhar a noite de núpcias de sua amada Serafina, com o farmacêutico Don Annibale. Apesar do conteúdo divertido da história escrita pelo autor italiano, o que vimos deixou muito a desejar no quesito comicidade.

A regência do espetáculo esteve a cargo do excelente Evandro Matté, responsável pela condução da Orquestra Unissinos Anchieta. Como solistas tivemos a soprano Luísa Kurtz, o baixo Saulo Javan e o barítono Douglas Hahn. Não me aterei à qualidade musical desses artistas, pois o preparo técnico tanto dos instrumentistas, quanto dos cantores e do próprio regente são impecáveis e perceptíveis a quaisquer pessoas, assim como a competência musical de todos esses profissionais.

No entanto, apesar do experiente e competente Luis Paulo Vasconcelos ter dirigido essa ópera, o resultado final pecou no que se refere à verossimilhança cênica. Mesmo fazendo esse comentário, gostaria de salientar o meu profundo apreço, admiração e respeito pelo trabalho de Luis Paulo Vasconcelos, um dos mais importantes diretores, atores e teatrólogos do nosso estado. Porém, não somos obrigados a acertarmos sempre e até mesmo os grandes cometem erros. Raramente, mas também podem cometê-los.

Outro fato que gostaria de destacar se refere ao elenco de atores que compunham as cenas. Alguns deles são experientes atores, com sólida carreira reconhecida no teatro e cinema gaúcho. Entretanto, o que víamos em cena era um excesso. Um exagero em querer parecer engraçado, em querer ser expressivo. Alguns dos figurantes pareciam querer se mover o tempo inteiro no palco, sem saberem o objetivo de tal fato. Em outros momentos, havia uma super atuação no que se refere à tentativa de busca da provocação do riso fácil.

Apesar dos cantores serem excelentes, percebia-se que eles haviam sido orientados a buscarem um tipo de comicidade que está ultrapassada nos dias de hoje e, na verdade, não fica nada engraçado. Além disso, o restante do elenco se mantinha em cena na linha do over acting. Mas, não que isso esteja de acordo com a proposta e sim porque estavam exagerados demais. A provocação forçada de piadas com situações atuais e regionalismos forçados perdia o time de comédia e não funcionava em momento algum.

Infelizmente, devo dizer que a responsabilidade por tais situações são de responsabilidade do diretor que pecou nesse quesito ao conduzir o seu elenco a um estilo de atuação e resoluções cênicas que não funcionam mais nos dias de hoje. Talvez, esse estilo de interpretação funcione em alguns programas televisivos considerados de humor. Mas, no teatro não funcionam.

A iluminação foi um capítulo à parte. A impressão que eu tive foi de que o iluminador não fazia a menor ideia do que estava fazendo na mesa de luz. O fato de a luz estar vazada e mal afinada foi pouco perto de algumas situações que ocorreram. Em certos momentos alguns moving lights ligavam e conduziam o foco pelo palco, sem terem relação nenhuma com a cena, muito menos com a localização do elenco. Além disso, por várias vezes, o iluminador errava o foco que deveria acender para a cena que estava acontecendo.

A cenografia me pareceu ser re aproveitada de outro espetáculo. Estava poluída, em dissonância com a proposta. Ela mais parecia estar ali para preencher o espaço cênico, do que para serem funcionais ao contexto da história.

No primeiro momento em que o elenco apareceu em cena, as maquiagens e figurinos me deram um susto. A impressão que tive foi de que haviam assaltado os guarda roupas dos brechós que ainda guardavam as relíquias dos figurinos de filmes do Almodóvar dos anos oitenta. Não havia uma proposta para o figurino. Não bastasse o mal gosto e o exagero gratuito dos vestidos excessivamente brilhosos, a impressão que dava era de que eles haviam sido alugados em algum brechó a esmo, ao invés de terem sido concebidos por um figurinista para esse espetáculo. Se a intenção era situar a peça no interior de uma boate dos anos oitenta, toda a concepção do espetáculo deveria ter sido feita com esse intuito. Porém, não foi o que observamos.

Apesar da visão equivocada com que o visagismo do espetáculo foi concebido, a história divertiu os espectadores mais pelo seu conteúdo e pelos excelentes cantores, do que pela poluição visual que observávamos em cena. Esses aspectos são muito importantes de serem observados quando falamos em uma ópera, pois ela não é um espetáculo de músicas apenas. Uma ópera é uma peça de teatro musical e, como tal, deve ter todos os elementos que compõem a cena concebidos com a mesma importância que desprendemos à técnica vocal dos cantores ou à perfeita execução dos músicos instrumentistas da orquestra.

Exemplos de excelentes espetáculos de ópera existem em diversos países, como as dirigidas por Robert Lepage, as montagens do Metropolitan de New York e em diversos países europeus. No Brasil, apesar do volume de montagens de espetáculos de ópera ainda serem discretos, dado o seu custo operacional, o interesse e procura do público é imenso. Por esse motivo, gostaria de ressaltar a necessidade dos diretores, regentes, músicos, técnicos, cantores e elenco desses espetáculos prestarem a atenção na qualidade o produto cênico que estão oferecendo aos seus espectadores.

Agora, vamos torcer para que as próximas óperas que venham a ser apresentadas em Pelotas estejam impecáveis, como o público pelotense e os artistas da cena merecem. Também espero que, com a consolidação desse importante festival internacional de música que movimenta nossa cidade no verão, nas próximas edições além das óperas também possamos contar com espetáculos musicais nos moldes dos encontrados na Broadway. Acredito que será de grande valia tanto ao evento, quanto aos espectadores, a presença de espetáculos que aliem o canto – demandando uma técnica diferenciada do erudito tradicional voltado às óperas -, excelentes composições musicais, bailarinos e atores que possam transitar por todas essas habilidades, como observamos nos espetáculos musicais contemporâneos.

Vagner Vargas
DRT Ator: 6606
Crítico de Teatro



Teatro Infantil Está Longe de Ser Fácil


Quando recebi a divulgação de um espetáculo infantil que seria apresentado no Theatro Guarany no dia 03 de abril de 2013, dois sentimentos surgiram. O primeiro de curiosidade pela obra que eu desconhecia e o outro de medo pela possibilidade de termos mais uma peça de teatro infantil com qualidade duvidosa e que trate as crianças como seres sem senso crítico.

Já comentei em outras críticas sobre o descaso com que alguns grupos de teatro tratam a concepção das peças infantis. Alguns atores criam personagens tão canastras que as crianças não demoram nem cinco minutos para se desinteressarem pela história. Outros diretores confundem desfile de carnaval com espetáculos para teatro e concebem encenações poluídas com fantasias em vez de figurinos; cenários desconectados da proposta, mas que esbanjam uma suntuosidade vazia; iluminação no estilo árvore de natal e músicas que costumam passar nos programas da TV aberta durante os domingos, ao invés de uma trila musical adequada ao contexto e ao público alvo.

Apesar de fazer essa introdução, não quero dizer que o espetáculo sobre o qual escreverei logo a seguir tenha cometido esses equívocos. Mas, sempre que se ouve falar de uma peça de teatro infantil, todas essas situações se tornam recorrentes e fazem necessárias de serem trazidas ao contexto de toda crítica teatral para que os leitores, quando forem ser espectadores de tais espetáculos, já se desloquem de suas casas com o olhar aguçado. Tomara que essas advertências já sirvam como estímulo a você que está lendo esse texto para criticar e negar os próximos espetáculos infantis que venha a assistir e se enquadrem nas características descritas acima. Os ganhadores dessa postura serão as crianças, pela exigência de qualidade superior nas peças de teatro que lhes são ofertadas.

O espetáculo Céu e Terra, Água e Ar, Tudo Fede Sem Parar..., baseado no texto alemão Wasser in Eimer, de Reiner Luckner e Stefan Reisner, tem a direção de Camilo de Lélis, dramaturgia de Ramón Berta Wayne, adaptação de José Lutzemberger, até que tem uma boa intenção ao se propor a contar uma história que incentiva o valor e a preservação do meio ambiente. No entanto, a história não saiu do palco. As crianças não se identificaram e não “viajaram” no enredo. Isso se tornava perceptível pelo fato da enorme dispersão das crianças, além da agitação de costume em uma peça infantil. As crianças não prestavam atenção na história e mais queriam brincar na plateia do teatro, do que prestar atenção na peça.

Possibilidades para essa rejeição das crianças são inúmeras. Nesse sentido, vou me ater apenas as que acredito que pudessem ser resolvidas facilmente pelo diretor do espetáculo. Em primeiro lugar, um teatro como o Guarany que possui um sistema acústico direcionado para grandes espetáculos musicais, sempre causa um enorme problema aos atores, já que esses não costumam ter a técnica vocal dos cantores de ópera para conseguirem ser ouvidos em todos os cantos da plateia. Sobretudo, em um espetáculo infantil, onde sabemos que as crianças sempre permanecerão conversando e se manifestando durante toda a apresentação. Esse fato demanda que os atores tenham uma técnica vocal impressionante para que suas vozes consigam se sobressair as dos espectadores.

Mas, no caso do Teatro Guarany, fazer uma apresentação para o público infantil é quase que uma tortura para o elenco, já que a acústica do teatro não lhes favorece. Desse modo, acredito que caberia ao diretor constatar esse problema e providenciar microfones ao elenco para que as crianças pudessem ao menos terem escutado a história da peça. Talvez, esse tenha sido um dos motivos pelos quais os espectadores se mostravam tão desinteressados, pois eles, simplesmente, não ouviam o que estava acontecendo.

Sobre o elenco formado por Evandro Soldateli, Lisandro Bellotto, Elisa Lucas e Ana Schneider, destaco as participações dos dois atores, uma vez que seus esforços em se fazerem ser ouvidos obtinham melhores resultados. O destaque ficou para Evandro que conseguia desenvolver uma relação mais próxima com a plateia e controlá-los com mais facilidade que o resto do elenco, além de conseguir ter um volume vocal que lhe favorecia.

Algumas piadas fáceis e soluções simplistas para a história não funcionaram em nenhum momento. Além disso, me parecia que o texto continha piadas que apenas os adultos compreenderiam o subtexto delas. Todas elas eram desnecessárias à história daquelas personagens.

Outro fator me incomodou bastante foi a iluminação. O espetáculo foi muito mal iluminado. A maior parte do tempo havia pouca luminosidade. Os espectadores já estavam com dificuldade de ouvir os atores e ainda havia pouca luminosidade. As cenas eram escuras, sem terem a necessidade de ser. Não era uma opção estética de encenação. Se foi, ela estava incoerente com todo o resto do espetáculo. Além disso, apesar do equipamento de iluminação presente no local, os focos estavam mal afinados, criando sombras inclusive nos lados do palco, desviando a atenção a cada vez que eram acessos.

O público infantil carece de espetáculos teatrais. Porém, isso não significa que devemos descuidar da qualidade do produto artístico que ofertamos às crianças. Essas experiências e vivências serão importantíssimas na formação de plateias futuras e no desenvolvimento do senso estético dessas pessoas. Por esse motivo, reforço a necessidade de olharmos para o teatro infantil com olhos mais respeitosos e não o encararmos como uma fatia de mercadológica de venda fácil para os espetáculos de teatro.

Mesmo tendo uma sensação desagradável em relação a esse espetáculo, saliento que todos os artistas envolvidos nessa montagem são bastante reconhecidos pela sua competência no meio artístico. Inclusive, observei o estado de exaustão que os atores ficaram após a apresentação, dadas as condições estruturais da casa de espetáculos. Porém, todas essas questões deveriam ser mais cuidadas pela produção da peça ainda durante o seu processo de ensaios.

Vagner Vargas
Ator – DRT: 6606
Crítico de Teatro



quinta-feira, 21 de março de 2013

Tabataba escancara a fragilidade humana



Por Joice Lima*
Um irmão. Uma irmã. Uma casa abandonada. Dois irmãos abandonados. Uma relação de dependência mútua. Uma casa em ruínas. Dois corações em ruínas. Dois corações que anseiam por liberdade. Duas almas aprisionadas. Uma à outra... Ou a si mesmas... Às suas próprias neuroses e fragilidades. À incapacidade de ir adiante. À necessidade de culpar o outro pela própria impotência. O pequeno espelho mostra oitenta pessoas atentas na plateia, mas a peça mostra muito mais. Mostra o quanto somos selvagens e, ainda assim, humanos. Humanos demais. Tão humanos que dói.
Irmão e irmã que gritam sua angústia, a frustração e o desespero pela incapacidade de sair "dali". Estão supostamente em uma ilha, mas poderiam estar em um arranha-céu, no meio de uma cidade grande. A solidão seria a mesma. A moça, Maiamuna, sonha em se casar, mas para fazer isso “precisa” encontrar uma concha fechada, "perfeita", que ela busca diariamente. O rapaz, Putoabu, sonha em conhecer o mundo, mas precisa terminar sua moto, imaginária, que ele monta, aos poucos, com pedaços de sucata. "Eu preciso ir, mas só vou se você for primeiro. Vai você! Vai você! Se não for, não posso ir". Um "precisar" autoimposto para disfarçar o medo, não, o terror de enfrentar o desconhecido. Mais fácil empurrar para o outro o peso das minhas decisões não tomadas. Mais fácil ficar e reclamar. Humano demais. Dói.

Um escancara a fraqueza do outro com sinceridade cruel – o dedo, impiedoso, enfiado na ferida aberta. Expõe a ferida do outro, mas segue imerso na própria fantasia. O ataque como defesa. Autoproteção. Apesar da agressividade mútua, o sentimento entre os dois derruba qualquer barreira de ódio. União fraternal... Sexual... Irmandade. Amor. Ou necessidade? Dependência? Precisam um do outro para manter seu teatro particular, sua vida protegida dos perigos do mundo real. Precisam um do outro... Será mesmo?

Tabataba, encenada a partir da peça do francês Bernard-Marie Koltès,  foi apresentada no final de tarde do último domingo (17), em uma casa em ruínas às margens da BR-392, KM 56. Dirigida por Rodrigo Rocha, a proposta é descentralizar o teatro, levar o público a outros lugares que possam contribuir na sua sensibilização, pesquisa que está desenvolvendo em seu TCC no curso de Teatro Licenciatura da UFPel. Funcionou. É verdade que a entrega visceral dos atores Martha Grill e Juliano Bohn Gass provavelmente teria emocionado mesmo em um espaço convencional, mas com certeza o “resultado” foi intensificado por diversos fatores... Ajudou o ritual percorrido pela plateia, que se deslocou até o Capão Seco, caminhou pelo campo até chegar à casa abandonada e se sentou em cadeiras portáteis ou no chão. Ajudou o por-do-sol, que serviu de iluminação natural - acabou no momento exato em que terminou a peça. Ajudou o ruído dos veículos que transitavam pela BR, seus sopros, secos, rompiam o silêncio absoluto da plateia, estarrecida com a performance. Ajudaram os grupos de quero-queros que cruzavam, de vez em quando, pelo céu, como se quisessem também eles fazer parte daquele momento especial. Ajudou um animal que entrou na última cena, nos momentos finais da peça. Ele (parecia uma lontra! não sei se era) apareceu ao fundo e correu um pouco, na direção dos dois irmãos, que estavam sentados em cadeiras, de costas para o público, selando sua reaproximação, inevitável. Chave de ouro para encerrar um trabalho que tocou e fez refletir sobre a fragilidade humana. Uma daquelas (poucas) performances que não se esquece e que faz a gente pensar: - Que bom que eu estava lá.

*Joice Lima é jornalista (UFSM), teatróloga (UFPel), atriz, diretora e dramaturga, integrante da Cia Pelotense de Repertório Teatral. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Histórias de uma Atriz Negra



Inicialmente, a história do teatro brasileira restringia os negros à plateia, quando podiam pagar, ou a personagens estereotipados, interpretados por atores brancos que maquiavam sua pele para interpretá-los. Obviamente que, envolto a isso, temos todo o contexto social brasileiro de uma época. Porém, foi graças ao pioneirismo de Abdias do Nascimento e Ruth de Souza, com o seu Teatro Experimental do Negro (TEM), criado em 1944, que esse panorama começou a ser modificado.

Em outro texto, já abordei a questão do papel do negro no teatro contemporâneo. Por esse motivo, não me deterei a ela aqui. Entretanto, não podemos esquecer e sempre deixar de lembrar a importância da atriz Ruth de Souza ao teatro brasileiro. Graças a sua coragem, determinação, talento e persistência, ela conseguiu consolidar sua carreira como uma das maiores atrizes brasileiras, além de abrir espaço para que muitas outras mulheres negras pudessem subir aos palcos como profissionais das artes cênicas, sendo respeitadas pela sua competência.

No dia 28 de setembro de 2012, foi apresentado, no Teatro do COP, o espetáculo “No Palco Ruth de Souza”. As atrizes Lucila Clemente e Kaya Rodrigues dividem o palco para contar a história de uma das figuras mais importantes da história recente do Brasil. O espetáculo em tom de memória, perfaz de maneira sintética a trajetória de carreira e vida pessoal de Ruth de Souza. O texto/concepção/direção/trilha sonora de Lucila Clemente e Josiane Acosta surgiu ainda quando as duas jovens atrizes estavam na faculdade de teatro, como seu trabalho de conclusão de curso. Talvez por esse motivo, se observe algumas fragilidades relativas a esses quesitos.

Não me aterei tanto a fazer uma minúcia técnica sobre os problemas existentes no espetáculo, em respeito à personagem tema da história. Entretanto, não posso deixar de comentar que a imaturidade artística das atrizes conferiu uma tonalidade de demasiada leveza à história de uma mulher que, com certeza, deve ter enfrentado e ainda enfrentar os piores preconceitos em relação ao seu percurso pessoal e profissional. Percebo que as atrizes desejaram fazer uma homenagem à Ruth e queriam que a peça tivesse um caráter alegre. No entanto, se fazia necessário prestar um pouco mais de atenção às dificuldades que ela enfrentou ao longo dos anos.

As projeções de vídeos com fotos e cenas de Ruth de Souza foram muito bem exploradas. Na verdade, a força cênica dessa atriz é tão grande que acabava criando um problema a Kaya e Lucila, quando terminavam os vídeos e voltávamos à cena teatral. A comparação acaba sendo inevitável e também não podemos esperar que duas atrizes tão jovens consigam se igualar à experiência de Ruth de Souza. Paradoxalmente, não quero dizer que as atrizes não sejam competentes. Muito pelo contrário, fazem valer a sua jovialidade e energia para segurarem esse espetáculo durante os quase 60 minutos de performance.

Por outro lado, vou citar apenas mais uma situação que se refere ao canto em teatro. Já comentei isso algumas vezes, pois acredito que o canto exige uma série de questões, tais como, técnica vocal, musicalidade, interpretação, emoção e etc... Entretanto, sempre temos que ter o discernimento das diferenças entre atores e cantores. Em um espetáculo de teatro, o ator pode cantar de maneira dissonante, com técnica falha, sem musicalidade, desde que isso esteja dentro de um contexto específico da história e do seu personagem. Caso contrário, apenas salientará a sua desafinação e falta de talento musical.

No caso desse espetáculo, as atrizes foram muito corajosas em cantar à capela em alguns momentos, talvez tentando mostrar um caráter  informal ao momento da peça. No entanto, estando em frente ao público, não há espaço para se utilizar a informalidade como defesa de nossas fragilidades técnicas. Acredito que os problemas observados nos momentos de canto, poderiam ser contornados se as atrizes fossem acompanhadas por músicos tocando ao vivo, já que um playback mecânico exigiria um potencial vocal muito maior.

Apesar de Pelotas ser uma cidade com uma expressiva população negra, não vi muitos negros no teatro naquela noite. Aliás, mesmo o espetáculo sendo gratuito, o teatro não estava nem cheio. Quem perdeu foi o público que deixou de ver uma apresentação teatral que contou a história de uma das atrizes mais importantes desse país.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.
 vagnervarg@yahoo.com.br www.ccetp.blogspot.com

O Lugar do Negro no Teatro Brasileiro Contemporâneo




Atualmente, com o avanço das discussões sobre a discriminação étnica e das Leis anti-racismo, a população negra começou a reivindicar os seus direitos perante à sociedade brasileira. No entanto, no que se refere ao mercado de trabalho para atores negros, apesar de terem ganho um pouco de visibilidade, esta ainda é ínfima, comparada à proporção de negros no contingente populacional brasileiro.

Embora algumas pessoas justifiquem que estejam vendo mais atores negros nas telenovelas fazendo personagens que não sejam apenas de escravos, motoristas, criminosos e empregadas domésticas, o padrão estético determinado pela grande mídia para a escolha desse elenco se pauta em traços de beleza caucasianos. Essas características são bastante discretas, mas vão desde à tessitura vocal ao formato de nariz, cabelos, tom de pele, tipo físico e etc... Além disso, os personagens costumam vir carregados de uma justificativa étnica para lá estarem, ou seja, se for um médico negro, haverá um conflito em torno da cor de sua pele, não sendo possível que apenas seja um médico que por ventura é negro.

 Outra justificativa que os defensores da mídia podem utilizar, se refere ao fato de que existem muitos atores negros em evidência na televisão brasileira. Porém, comparando a realidade étnica brasileira e a diversidade que se observa nas ruas, você continuará pensando que a proporção de atores negros na TV reflete à realidade brasileira? Ou será apenas uma obrigatoriedade para cumprir uma mera quota de conformismo com as oportunidades igualitárias? Será que os negros não geram audiência e consumo? O que ocorrerá no dia em que os negros resolverem ter a coragem para mudar de canal e buscarem uma programação que realmente os inclua e os trate de maneira igualitária?

No entanto, meu foco aqui não se direciona à TV. Todavia, não podemos falar sobre oportunidades de trabalho para atores negros, sem citarmos as mídias de massa. Nesse sentido, ainda refiro os personagens negros que atualmente aparecem no cinema nacional. As mesmas reflexões que citei anteriormente se referem à sétima arte. Contudo, acredito que, no que tange aos personagens, o cinema brasileiro ainda está um passo atrás, já que grande parte dos filmes brasileiros colocam o negro apenas numa situação marginalizada. Não quero dizer com isso que essa realidade não seja verossímil. Porém, será que é a única?

Quando falamos em teatro, o ponto de análise se altera, pois as imposições midiáticas não chegam a afetar a grande produção teatral. Entretanto, no que se refere ao teatro comercial, em especial àquele produzido no grande eixo Rio-São Paulo, as normatizações estéticas da televisão costumam determinar as escolhas de elenco. Apesar disso, devido ao caráter democrático que o teatro costuma apresentar, temos a possibilidade de ver um contingente maior de atores negros em cena. Mesmo assim, a proporção de atores brancos costuma ser maior.

Essa situação nos leva a refletir sobre quais motivos tornam esse fato uma realidade. Obviamente, não podemos deixar de ter em mente que há séculos a população negra sofre um processo de discriminação, exclusão e marginalização étnica em nossa sociedade. Além disso, apenas há algumas décadas estão ocorrendo avanços civis sobre esse assunto. Nesse sentido, devemos sempre ponderar sobre as oportunidades num sentido global, uma vez que envolvem aspectos que não se relacionam somente ao mercado de trabalho artístico, mas também à educação, moradia, saneamento e etc... Muitas pessoas podem contestar dizendo que esses fatores não estão diretamente relacionados ao desempenho profissional no teatro. Todavia, devemos ponderar que, do nosso confortável ponto de análise, as condições sociais podem ser as mesmas para quaisquer etnias. No entanto, ao colocarmos o advento histórico nessa balança, será que não teríamos um lado étnico mais sobrecarregado?

Desse modo, a luta pela sobrevivência e pelo espaço igualitário na sociedade acaba levando os negros a buscarem alternativas mais imediatas de subsistência. Além disso, as oportunidades artísticas costumam estar localizadas em pontos sociais distantes da realidade dessas pessoas não somente no aspecto geográfico, como também de identificação. Talvez os motivos que expliquem o pouco contingente de atores negros nos palcos brasileiros, em relação à proporção populacional, estejam ligados a esses fatores.

Sob esse ponto de vista, também gostaria de salientar a escassez de uma produção dramatúrgica voltada ao teatro que contemple temas relacionados à etnia negra que não sejam aqueles que falem apenas de sua marginalização social, escravidão ou as mesmas abordagens dadas pela TV e pelo cinema nacional. Da mesma forma que os gregos e outros tantos povos souberam transformar suas mitologias em teatro, a mitologia brasileira, de origem africana também deveria receber esse tratamento.

Obviamente, que os fatos históricos, a colonização brasileira e os conceitos ainda arraigados em princípios de uma moralidade religiosa dos tempos em que o Brasil ainda não era um estado laico segundo à Lei, abarcaram todo um processo de opressão para manter a cultura negra longe dos limites história oral. Nesse sentido, acredito que essas histórias ainda precisam ser escritas e firmadas na dramaturgia teatral brasileira.

Porém, gostaria de salientar que esse discurso não está demarcando o ramo de atuação dos negros para espetáculos que abordem suas origens étnicas e  religiosas. Muito pelo contrário, acredito que esse pode ser um dos caminhos de identificação para atrair uma fatia de público que costuma estar à margem das histórias que lhes são apresentadas e a partir daí, quem sabe, oportunizar-lhes uma perspectiva de identificação e auto-estima. Além disso, também acredito que os atores negros devam lutar pelo seu espaço para fazerem personagens que não venham com a descrição “negro” no texto original, pois se a característica étnica não é o conflito principal daquele personagem em determinada história, não existem limitações para que apenas as pessoas de origem caucasiana tenham o direito de representá-los.

Contudo, não podemos deixar de ponderar sobre o aspecto de que sempre é colocado sobre os ombros da população negra a responsabilidade por lutarem pelos seus direitos e espaços na sociedade. Esse ponto de vista é confortável e cômodo aos indivíduos de outras origens étnicas, uma vez que, numa análise simplista, não precisariam alterar em nada suas condutas sociais e profissionais para permitirem a igualdade de direitos e oportunidades para todos os cidadãos. Desse modo, reitero o foco desse texto ao mercado teatral para os atores negros no Brasil, uma vez que não devemos jogar a responsabilidade da pouca proporção de atores negros nos palcos, apenas ao fato deles não lutarem pelo seu espaço nesse mercado de trabalho. Essa seria uma visão alienada e ingênua. Cabe sim aos espectadores negros exigirem sua retratação nos palcos, aos atores negros terem o seu devido espaço, mas acima de tudo, aos artistas que trabalham nesse mercado abrirem as oportunidades para que os personagens sejam tratados apenas como seres humanos. Sendo assim, a origem étnica do profissional que o interpretará será desconsiderada, já que o personagem será tratado pela sua essência humana.

No entanto, não quero que as duas últimas frases do parágrafo anterior sejam distorcidas, uma vez que essa foi a justificativa para que durante muitos anos atores brancos maquiassem a sua pele com o intuito de interpretarem personagens negros. Quando falo em personagens negros, me refiro a histórias em que o contexto étnico dessa personagem se torna a essência de seu mote conflitual. Realmente, o palco é o lugar mais democrático, onde todos artistas podem ser quem a história precisar que eles sejam. Mas, isso não quer dizer que esse argumento se torne uma justificativa para enfatizar o processo de exclusão social de raiz étnica que temos em nosso país. Sendo assim, quando o foco da existência daquele personagem não for o conflito social gerado em função da sua etnia, não haveria justificativa para que os personagens fossem pensados numa lógica caucasiana. Com isso, enfatizo que a escassez de atores negros nos palcos também se deve à necessidade de mudança na perspectiva que os próprios artistas do teatro têm em relação aos personagens das peças de teatro.

Portanto, gostaria de finalizar esse texto, em que levantei algumas reflexões sobre o lugar do negro no teatro brasileiro contemporâneo, reiterando a necessidade de que sua história e tradições sejam tradas com o respeito e a importância que merecem, sem olhar vertical determinado pela a cultura caucasiana nos palcos, TV e cinemas do Brasil. Além disso, também saliento o fato de que os negros precisam fazer valer o seu valor como geradores de consumo, audiência e presença na sociedade. Dessa forma, acredito que a ponderação sobre os fatos aqui levantados possam ser apenas alguns poucos pontos de vista que nos levem a refletir sobre número de atores negros que vemos nos palcos brasileiros.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.