quarta-feira, 11 de abril de 2012

Altruísmo no Teatro

           No último final de semana, dias 07 e 08 de abril de 2012, Pelotas recebeu o espetáculo “Os Altruístas”, de Nicky Silver, com direção e adaptação de Guilherme Weber, tendo no elenco Mariana Ximenes, Kiko Mascarenhas, Jonatahan Haagensen, Miguel Thiré e Stella Rabello. Nos dois dias em que a peça foi apresentada, observamos o Teatro Guarany cheio, mas não lotado. Não existiria público suficiente para lotar a casa de espetáculos, ou os altos preços dos ingressos acabam inviabilizando que a maioria da população tenha acesso a esses eventos culturais em nossa cidade? Seria esse o preço de ter nomes televisivos no elenco ou os custos com o aluguel de um teatro privado de grande porte, todo o aparato técnico necessário na apresentação e os custos locais para a vinda de artistas de fora da cidade que acabam encarecendo os ingressos?

          O título da peça oferece um caráter crítico por si só, já que a palavra altruísmo pode ser associada a um significado de solidariedade. Assim, os fatos transcorridos durante a história questionam até que ponto uma atitude pode ser benevolente, dependendo da perspectiva de análise que se tome. A montagem apresenta uma estética não realista em todos os seus aspectos de concepção, o que, particularmente, considero como um ponto favorável à construção de repertórios estéticos diferenciados dos tradicionais televisivos que predominam na população brasileira.

          Logo de início, somos confrontados com um visagismo muito coerente com proposta de concepção do espetáculo. A cenografia de Daniela Thomas propõem elementos funcionais capazes de criar a atmosfera sombria em que os personagens estão submersos. Além disso, o figurino de Emília Duncan e Antonio Frajado criaram uma identidade visual para os personagens o que, de início, gerou surpresa e desconforto nos espectadores, já que confronta as identidades de gênero normatizadas pela sociedade brasileira. Quando os atores, com seus corpos musculosos, entram em cena seminus, vestindo peças de lingerie feminina, se portando de maneira andrógena, causaram reações de espanto e muitos comentários na plateia. Os espectadores ali presentes talvez tenham ido ao teatro na esperança de verem de perto os galãs e mocinhas das telenovelas. Entretanto, esses estereótipos midiáticos são quebrados logo de cara.

          A iluminação de Domingos Quintiliano constroi uma dramaturgia competente no que se refere à criação de atmosferas taciturnas, depressivas e oligofrênicas que perpassam as histórias que envolvem os personagens. Além disso, a paleta de cores, a afinação das luzes e os efeitos estavam muito precisos, não deixando a desejar em nenhum momento. Saliento, ainda, a dificuldade de se fazer uma iluminação cênica, quando se utilizam espelhos no palco. Em nenhum momento, houve reflexo ou interferência de reflexo que não estivesse de acordo com a concepção de encenação. Aliás, os espelhos suspensos no ar propiciavam uma perspectiva de análise diferenciada para os espectadores. Mais uma vez, enfatizo as congratulações ao visagismo de Marcos Padilha.

           Outro aspecto que gostaria de ressaltar se refere à trilha sonora contendo músicas de Bertold Brecht e Kurt Weil, dentre outros. As músicas e efeitos sonoros eram inseridos em momentos muito pertinentes, estando de acordo com as situações propostas. Refiro isso, pois não são poucas as vezes em que vemos peças de teatro com músicas e efeitos sonoros em desacordo com a proposta estética do espetáculo. Assim como a trilha sonora, a direção ficou a cargo do experiente ator Guilherme Weber, integrante e co-fundador da Sutil Companhia de Teatro, juntamente com Felipe Hirsh.

           A concepção de encenação conseguiu criar uma identidade visual ao espetáculo não apenas no que concerne os aspectos técnico-estruturais, mas também em relação ao ritmo das cenas, às atuações, elocução dos textos, trabalho físico dos atores e recortes dramatúrgico-textuais. Em vários momentos, haviam duas ou três cenas ocorrendo simultaneamente, sem “sujar” ou causar “ruídos” na circunstância que recebia destaque. Essa situação, quando não realizada com competência, acaba prejudicando a qualidade do desempenho cênico. Por esse motivo, dificilmente, os diretores costumam utilizar esse recurso. Em “Os Altruístas”, isso não foi um problema, muito pelo contrário, foi uma ótima solução para desconstruir o sentido realista que uma narrativa linear teria, o que viria de encontro à proposta do diretor.

          Guilherme Weber conseguiu mostrar que é um diretor competente não penas na condução de todo o resultado cênico da peça, mas também no que se refere às atuações. A “mão do diretor” ficou evidente na qualidade das interpretações e na proposta de construção das personagens. Entretanto, o elenco estava aquém dos resultados estéticos que as personagens teriam, caso fossem feitas por atores com uma bagagem de trabalho físico e vocal mais consolidada. Muitas vezes, aulas de canto, dança, ginástica e musculação não são suficientes para incrementar o repertório corporal dos atores, no intuito de fornecer-lhes a disponibilidade cênica que determinados personagens exigem. O que víamos, eram atores se esforçando para desenvolverem a corporeidade de suas personagens. Todavia, o efeito cênico não passava da “forma pela forma”, ou seja, movimentos marcados, ensaiados que não encontravam uma identificação corporal em consonância com a proposta estética para a concepção das personagens.

          Além disso, apesar da proposta de desconstrução estilística da oralidade das falas – o que considero um ponto positivo do espetáculo, pois propicia outra relação do espectador com o texto que está ouvindo -, os atores não conseguiam sustentar a força cênica que esse tipo de proposta exige. Não foram poucas às vezes em que o texto e/ou a proposta não realista das falas perderam o seu sentido e força, devido ao excesso de uso. Considero esse tipo de experimentação extremamente válida, em especial, por ressaltar aspectos da teatralidade que costumam ser esquecidos em alguns espetáculos que apenas tentam deslocar outras linguagens artísticas para os palcos. No entanto, para que se atinja esse tipo de objetivo com competência cênica, precisamos de atores com um sólido repertório e preparação prévia para o trabalho em teatro que fuja das tradicionais montagens do teatro comercial oriundo dos grandes centros de mídia no Brasil.

           Entretanto, não posso generalizar e cometer o erro de não destacar o trabalho do ator Kiko Mascarenhas que, além de dar o ritmo ao espetáculo, conduziu o time e desviou a fragilidade das atuações de seus colegas. Mesmo assim, caberia ainda ao diretor dosar melhor os momentos em que a personagem de Kiko cai nos estereótipos, pois o excesso de repetições e falsetes acabam por reduzir o potencial crítico da criação dessa personagem. Mas, acredito que esse ator conseguiria dosar a personagem na medida certa, pois demonstra possuir capacidade para tanto. Porém, em alguns casos, cabe ao diretor o olhar de fora para indicar esse tipo de caminho ao ator.

          Ao chegar no teatro e ver algumas mulheres em seus longos vestidos e alguns homens em ternos bem cortados, fiquei imaginando qual seria a motivação que os teria levado até àquela casa de espetáculos para assistir a uma peça de teatro que, justamente, apresenta um olhar crítico ao altruísmo. Assim que a atriz Mariana Ximenes entra em cena e começa mostrar sua personagem, a imagem da mocinha pura, santa e casta das telenovelas brasileiras se esvaía. Mas, a maior parte das reações de desconforto na plateia se referiam à androgenia dos personagens masculinos. Apesar de expô-los conforme as imagens de objeto de desejo veiculadas pela mídia, o comportamento deles em cena contrariava totalmente às normatizações de identificação do gênero masculino na sociedade brasileira. Os muitos momentos em que os personagens falavam palavrões ou apresentavam situações comportamentais transgressoras, expondo condutas sexualizadas, falando de assuntos que confrontavam a hipocrisia social, causavam muitos comentários de repúdio em algumas pessoas “conservadoras” ali presentes.

          A meu ver, o ápice dessas reações ocorreu, quando os personagens de dois atores se beijaram em cena. Apesar de estarmos no teatro, de acreditarmos que as pessoas naquela plateia soubessem que o que ocorre no palco é ficção, ao verem dois homens se beijando EM CENA, muitas pessoas protestaram e não se sentiram acanhadas de mostrar o seu descontentamento em presenciarem aquela situação. O que me choca não é o beijo entre dois atores em cena, mas sim, a reação do público pelotense ao reagir dessa forma em pleno 2012! Lembro que, naquele momento, após já estar observando o desassossego do público com todas as quebras de imagens idealizadas de celebridades que o próprio espetáculo desconstroi, da linguagem textual ácida, fiquei ponderando se Pelotas não se chocaria com uma montagem de “A Dama das Camélias” ainda nos dias de hoje. O caso do imaginário pelotense ter se arraigado nos ideias do século XIX merece ser estudado, uma vez que ainda observamos que uma fatia da sociedade desse município se reveste no lustre de um tempo que todas as discussões contemporâneas já superaram.

          Em face disso, fico com receio do que pode acontecer com essas pessoas que ainda mantém seus referenciais estéticos nos idos de 1800 ou até mesmo em séculos anteriores, uma vez que essa cidade, poderá vir a receber muitos espetáculos com propostas contemporâneas, com textos longe dos puritanismos e floreios românticos dos grandes salões de recitais. Obviamente, não posso terminar esse texto sem continuar lamentando o fato de não dispormos de nenhum teatro público em funcionamento nessa cidade. Além disso, cada vez que passo pela Av. Bento Gonçalves e vejo o Theatro Avenida ruindo e, quando circulo pelo centro histórico do centro da cidade, vejo o Theatro Sete de Abril com risco de desabar, só desejo que venhamos a ter políticas culturais nessa cidade que propiciem o acesso à cultura para todos os cidadãos pelotenses.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico teatral

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Procuram-se Espectadores para Teatro

          O Centro de Treinamento do Grupo Tholl, além das funções pertinentes a sua trupe, passou a agregar o fluxo de produção teatral que chega até Pelotas. Como o Theatro Sete de Abril está fechado, o Theatro Avenida ruindo, o Teatro do COP funcionando como espaço de aprendizado para os alunos das faculdades de teatro e dança da UFPEL e o Teatro Guarany recebendo grandes produções, o espaço do Grupo Tholl se tornou a opção para receber espetáculos teatrais que não tenham nomes televisivos figurando em seus elencos.

          Obviamente, já passaram por esse espaço artistas que trabalham em cinema e TV. Entretanto, a “casa de espetáculos” localizada nas imediações da zona do porto passou a receber peças de teatro produzidas no interior do Rio Grande do Sul e produções que não dispõem de patrocinadores que viabilizem suas apresentações em teatros maiores e mais centralizados. Apesar disso, na noite de 27 de setembro de 2011, apenas 15 pessoas foram até o Centro de Treinamento do Grupo Tholl para assistirem ao espetáculo “Sucesso a Qualquer Preço”, do Grupo Ação de Experimentação Cênica, oriundo da cidade de Santa Maria/RS.

          Com direção de Antônio Orellana, concepção de luz de Gabriela Amado, operação de luz de Maurílio Bertazzo, operação de som de Mariana Lohmann, figurinos de Adriana Dal Forno e produção de Lia Procati, a peça inspirada na obra de David Mamet, traz como seu mote a concorrência no mercado de trabalho. Ao chegarmos à plateia, nos deparamos com um cenário não realista, mas, apesar disso, percebia-se que o diretor queria partir desse fato para caracterizar aquele ambiente da maneira mais realista possível. A iluminação e a forma como alguns elementos de cena foram utilizados me lembraram o espetáculo “Aqueles Dois”, da Cia Luna Luneira que esteve em Pelotas ano passado. Porém, o grupo de Santa Maria não soube utilizar a iluminação e o cenário com a mesma maestria do grupo mineiro.

          A concepção de encenação está limpa, tendendo ao realismo e buscando dar ritmo à cena, conforme a energia de entradas e/ou saídas dos personagens. Além disso, o recurso de distanciamento utilizado foi bem pertinente ao promover uma aproximação dos atores com os espectadores no início do espetáculo, já preparando-os para as situações que viriam a ocorrer ao longo da história.

          O elenco formado por Antônio Orellana, Djefri Ramon, Gabriel Araújo, Gelton Quadros, Marcos Caye e Tatiana Vinadé é bastante jovem e com muita vontade de estar em cena. Devido ao fato desse espetáculo ser fruto de uma disciplina de graduação, na modalidade de bacharelado em Artes Cênicas, da Universidade Federal de Santa Maria, ainda percebemos que alguns aspectos não maduros na montagem se devem à pouca experiência do grupo, ou, possivelmente, às questões que estavam sendo trabalhadas na disciplina onde essa peça foi criada. Todavia, já é possível observar nesse grupo a busca por uma identidade estética para o seu trabalho, em especial, no que se refere à concepção de encenação e à direção do espetáculo.

          Quanto às atuações, acredito que ainda falte um pouco de tranqüilidade e maturidade para que os atores consigam desfrutar dos minutos de prazer que o artista tem quando está em cena. Mesmo assim, se observa que há a busca por um trabalho e pela formação desses atores. Acredito que a experiência de jovens atores se proporem a montar textos, sem a preocupação com o mercado de espetáculos comerciais, seja sempre válida. Entretanto, no caso desse espetáculo, há um quociente comercial muito grande, uma vez que, ao tratar de relações e disputas entre vendedores, essas situações podem ser extrapoladas para quaisquer outras profissões, o que facilitaria muito a venda desse espetáculo para diversas empresas, com o intuito de discutir as relações trabalhistas.

          Além disso, a adaptação poderia ter focado na crise hipotecária que recentemente afetou os Estados Unidos, com o intuito de transpor os fatos para uma situação contemporânea recente, já que a história se passa nesse país. Não obstante, essa é apenas uma opinião particular, já que a opção por não datar a montagem em nada afeta o seu impacto e a sua validade. O espetáculo funciona comercialmente. Contudo, acredito que ainda precise passar por um tempo de maturação para emergir com a força cênica pertinente às temáticas relacionadas às relações humanas.

          Por outro lado, apesar de Pelotas ter mais de 300 mil habitantes, cursos de graduação e pós-graduação nas áreas ligadas às artes, haviam apenas 15 pessoas na plateia desse espetáculo! Na mesma semana em que ocorrem os festejos pela inauguração da cortina do Teatro Guarany, com casa lotada, uma peça de teatro tem sua plateia quase vazia. Pelotas tem a fama e tradição de ser uma cidade com apreço cultural. Porém, será que essa realidade não ficou apenas no século XIX? Ou o público pelotense só frequenta os teatros localizados no centro da cidade? Além disso, será que os pelotenses só vão ao teatro para verem os artistas da novela, sem nem ao menos significarem o conteúdo do espetáculo que será apresentado?

          Esses questionamentos me parecem pertinentes não somente entre artistas, mas à mídia, aos educadores e à população pelotense em geral. Nesse sentido, termino esse texto lamentando os poucos espectadores que haviam na plateia dessa peça de teatro e esperando que as políticas culturais voltadas ao teatro estejam entre as prioridades de todos os governos que passem por essa cidade.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.
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sábado, 10 de setembro de 2011

Da Academia à Vida Artística – Um Longo Caminho de Libertação ao Teatro!

          Mais uma vez, o Centro de Treinamento do Grupo Tholl serviu de local pra a apresentação de um espetáculo de teatro em Pelotas. No dia 19 de junho de 2011, foi apresentado o espetáculo “As Linhas de Elise”, uma adaptação do texto “Por Elise”, de Grace Passô, também responsável pela concepção cênica. Além disso, a equipe contava com a direção, adaptação e trilha sonora de Mariana Lohmann, projeção de Marcos Caye, iluminação de Vinícius Blacon, contra-regragem de Nelson Helo e Gustavo Scherer, este último também responsável pela maquiagem dos atores.

          A peça conta a história de Elise, uma dona de casa que revive as memórias dos seus vizinhos, utilizando como fio condutor dos fatos, a metáfora do ritmo de uma estação de trem, onde vidas se cruzam para seguirem novos caminhos, tecendo uma narrativa nem um pouco realista. As histórias envolvem temáticas relacionadas às relações humanas e a super proteção pelo medo de se envolver com o mundo, construindo uma dramaturgia fora do convencional.

          Esse espetáculo foi concebido por egressos da faculdade de teatro da Universidade de Santa Maria/RS, oriundo do trabalho de conclusão de curso de Mariana Lohmann. Indubitavelmente, percebe-se que houve uma proposta de concepção para encenação bem elaborada e pensada nos seus mínimos aspectos. A direção optou por utilizar o espaço cênico com múltiplas possibilidades para as entradas e saídas dos personagens, direcionamento de cenas que ocorriam dinamicamente pelo meio da plateia e recursos de projeção. Possivelmente, essa opção foi criada com o intuito de ser mais um elemento que corroborasse à ênfase da proposta de dramaturgia não realista que foi empregada. Devido aos custos e às dificuldades técnicas, o teatro gaúcho pouco utiliza o recurso de projeções, quando as propostas cênicas permitem esse tipo de tecnologia em cena. Por esse motivo, quando o público vê o diálogo com outras mídias na cena teatral, costuma sair encantado. Entretanto, os recursos tecnológicos nem sempre são bem empregados nos espetáculos nacionais. Muitas vezes, apenas são utilizados para dizer que ali estão. O que não foi o caso em “As Linhas de Elise”, pois a direção utilizou essa ferramenta de maneira ponderada e eficaz.

          O título desse texto não foi posto por mero acaso, pois, após assistir a essa peça, fiquei refletindo sobre o excesso de técnica que às vezes carregamos para o momento da comunhão com o público. Me refiro a esse aspecto, uma vez que o elenco composto por Antônio Orellana, Amanda Hoffmann, Douglas Jung, Elis Genro, Ícaro Costa, Nelson Girard e Marcos Caye se mostrava bastante jovem, vigoroso e com uma gama imensa de técnicas recém aprendidas na academia. Um dos grandes desafios de um artista quando passa pela academia é saber dosar entre a técnica e a arte. Os recursos técnicos de atuação, sejam eles quais forem e/ou ligados a poética que forem, devem ser apenas ferramentas que ampliaram nosso repertório estético e criativo, para permitirem outras possibilidades quando partimos para a arte.

          Obviamente, esse tipo de percepção somente a maturidade nos confere. Entretanto, ao observar aqueles jovens atores e reconhecer as bases de seu trabalho, percebia o quão técnicos eles estavam sendo, o quanto haviam estudado e se dedicado para transfigurarem em seus corpos aquelas habilidades. Talvez esse tenha sido o motivo pelo qual não consegui me envolver emocionalmente com o espetáculo, pois as correntes acadêmicas ainda estavam muito arraigadas nos corpos daquele elenco. A academia e os cursos livres de formação de atores lhe fornecem mecanismos teóricos e técnicos para que, no futuro, o profissional que tenha vocação para o teatro, venha a utilizá-los de maneira que lhes permita outra abordagem criativa. Porém, o grande desafio para os artistas inexperientes é conseguir fazer com que a técnica fique imperceptível ao público, uma vez que teorias e conceitos do trabalho prático dos atores se direcionam apenas aos trabalhadores desse setor.

          Por sua vez, os espectadores saem de suas casas e vão ao teatro para verem uma história ser contada, entrarem naquela atmosfera imaginária e se envolverem com as situações vividas pelos personagens, não para saberem quais teorias nortearam o processo criativo dos atores, nem tampouco qual a técnica utilizada por eles. Aqueles que desejam obter essas informações, costumam procurar o elenco após as apresentações e dialogar sobre esses assuntos. Entretanto, de um modo geral, o público quer ver teatro e não demonstrações técnicas.

          Em contrapartida, não quero que esse comentário soe como crítica negativa ao trabalho dos atores. Muito pelo contrário, pois todos mostravam um bom nivelamento das atuações, estando muito entregues às cenas e com um material bruto ainda por ser lapidado. Nesse sentido, tenho certeza de que a maturidade irá aprimorar ainda mais as qualidades daqueles jovens artistas e ainda teremos o prazer de assistir a outros espetáculos em que estejam atuando.

          Portanto, gostaria de finalizar esse texto dizendo que a ida ao teatro é sempre válida e que o público pelotense precisa voltar a frequentar os eventos culturais dessa cidade. Durante muitas décadas, os pelotenses eram reconhecidos como pessoas que consumiam muita cultura. No entanto, o que vemos atualmente é que as artes deixaram de fazer parte do cardápio da população pelotense. Sendo assim, termino esse texto ainda esperando ver o público dessa cidade mais motivado a frequentar os espetáculos teatrais que por aqui passarem.

MSc. Vagner Vargas
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Alteridade Confrontada na Comédia dos Erros de Shakespeare

          O público formava uma grande fila que se estendia até à rua. Muitas pessoas aguardavam antes do horário para assistirem ao espetáculo “A Comédia dos Erros”, clássico de Wiliam Shakespeare, apresentado pela Cia Stravaganza, de Porto Alegre/RS, no dia 28 de Agosto de 2011, no Centro de Treinamento do Grupo Tholl.

          Com primorosa direção da experiente Adriane Mottola, o espetáculo propunha uma disposição do espaço cênico diferenciada do tradicional palco italiano. Logo que os espectadores entravam, eram confrontados com um mercado público, com signos que remetiam aos comércios populares do oriente médio. Os personagens da história recebiam o público, oferecendo-lhes alguns produtos que estavam à venda durante a peça.

          O cenário é disposto de maneira horizontal, espalhado entre os assentos da plateia, conferindo um aspecto de rua, já inserindo os espectadores dentro da atmosfera dessa feira pública onde as histórias se desenrolam, muitas identidades surgem, desaparecem e se transformam ao longo de, aproximadamente, 100 minutos. Aliás, identidade é justamente o mote inicial do discurso que principia o espetáculo.

          As luzes se apagam e surge uma Drag Queen, a famosa celebridade de showbiz do entretenimento noturno gaúcho Laurita Leão, criada pelo excelente ator Lauro Ramalho. Laurita começa o espetáculo falando sobre identidades de pessoas, coisas, lugares e refletindo sobre a noção epistemológica e conceitual que essa temática aborda. A personagem nos fala sobre a reconciliação com a imagem que criamos de nós mesmos, no entanto essa identificação permanece inquietante e continuamente desconhecida e em criação, enquanto o tempo passa. Durante todo esse discurso, a Drag Queen vai se “desmontando” aos olhos dos espectadores, deixando desaparecer a imagem de superficialidade burlesca, enquanto surge a personalidade do ator Lauro Ramalho que se reconstroi na caracterização de um velho comerciante, seu novo personagem, ou sua nova identidade naquela história.

          O desprendimento que esse ator teve, para revelar sua fragilidade por de trás do escudo que a primeira figura lhe imprime, enquanto se expõe como ator, para logo após ilustrar a construção de seu novo personagem, demonstra um exercício de humildade, coragem e entrega verdadeira que apenas os grandes artistas conseguem comungar com o seu público. Esse é apenas o assunto inicial que a adaptação da Cia porto-alegrense usou para situar o público na temática relacionada ao texto escrito originalmente no século XVII. Apesar de ser um texto tão antigo, seus questionamentos ultrapassaram todos esses séculos e essa proposta teatral adaptada para um outro contexto conseguiu aproximar ainda mais os ali presentes, da história que lhes estava sendo contada.

          Não posso deixar de tecer elogios às concepções de figurinos, cenário, elementos de cena, iluminação e sonoplastia, pois todos esses aspectos nos saltavam os olhos para a percepção do requinte de uma proposta de encenação muito bem elaborada. Não apenas os detalhes dos figurinos, mas também a própria paleta de cores utilizada permitia imprimir uma identidade visual não apenas a cada personagem, mas ao espetáculo como um todo. Nenhum elemento que surgiu em cena estava ali sem um propósito contextualizado na encenação. Não foram necessários elementos alegóricos, nem grandes ornamentações que exibem apenas uma ornamentação cênica vazia. Muito pelo contrário, o trabalho da equipe técnica desse espetáculo é preciso, adequado, pertinente e funcional.

          O texto conta uma história de uma troca de bebês que acabam se cruzando no futuro, tendo suas identidades confundidas ao longo de uma série de situações que vão construindo o enredo divertido da história Shakespeariana. Embora o texto seja excelente, nesse caso, a sua transposição para a linguagem teatral só obteve o devido êxito, pois o elenco composto por Carlos Alexandre, Gustavo Curti, Sofia Salvatori, Fernando Kike Barbosa, Lauro Ramalho, Janaína Pelizzon, Adelino Costa, Rodrigo Melo, Anita Coronel, Rafael Guerra e Vanise Carneiro estava extremamente afinado. Os atores souberam dialogar com a plateia, mantendo o ritmo e o envolvimento com os espectadores durante toda a peça.

          A meu ver, tivemos o deleite de assistir a dois espetáculos. O primeiro contendo o discurso filosófico e antropológico conduzido pelo grande ator Lauro Ramalho. O segundo continha todas as peripécias da história criada pelo dramaturgo inglês e desempenhada de maneira competente pelo elenco da Cia Rústica. Nos últimos anos, tenho observado que sempre que um texto de Shakespeare vem a Pelotas, o teatro não apenas lota, como o público gosta muito do que lhe é apresentado.

          Considero que Shakespeare sempre é uma boa pedida. Porém, os textos desse autor costumam ser muito temidos, pois não é qualquer elenco, nem diretor que consegue segurar a profundidade de seus diálogos, críticas e abordagens temáticas. Nesse sentido, finalizo re-enfatizando a grande ideia desse grupo ao aliar o mote da “Comédia dos Erros”, ao discurso sobre identidade enquanto observamos a transformação de um artista em cena, nos levando a refletir sobre as muitas identidades que vamos construindo e assumindo ao longo de nossas vidas.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.
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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Palavras nu corpo da plateia perdida em palavras nu corpo

                              Por Carlos Cogoy


Tire a roupa. Cada peça um código. Tire a lógica. Cada código uma barreira. Tire e queda.
Jocasta arrasta ou está presa? Sua cauda em tecido, tanto prende quanto projeta a infinitude.
Édipo reclama sua sina. Estupefato, clássico, dialoga com o imponderável. Édipo fala, apenas...
Grão, fartura do pouco, recorte do todo. Um dedo de Sófocles. Cerimônia contida.
Abruptamente a cena engasga. Elas invadem a concha grega. Trapos, cores, voz mambembe.
Na plateia, Édipo e Jocasta. A solenidade vira praça. Histriônica, atrevida, a arte popular debocha, ri, mas pergunta...
Como alguém formado em teatro, pretende sobreviver na tragédia capitalista?
Boneca gira, circula, flerta. Aos espectadores, em pé, ela mima, agrada, sorri e diz que gosta.
Mulher popular, tetas caídas. O carrinho das tralhas está num canto. Retoma o sarcasmo...
Satiriza sobre o teatro-compromisso, arte social. É preciso o teatro nas comunidades. Será mesmo?
Eros contempla, nada diz. Sem palavras. Sem roupa. Adornado por alfaces. Levanta e some... Tânatos ligou?
Primeiro ato, ou cena, ou falha, ou fragmento. Primeiro véu da primeira turma de teatro da UFPel. Polifônico número um.
Num daqueles galpões da Tamandaré, reaproveitado pela universidade pública, metros de ‘encerado’ demarcando territórios, moldando ambientes, insinuando labirinto. Trama no espaço, códigos revisitados, Shakespeare no espelho.
Sala de espera, cadeiras, público chega. Quem se re-conhece, acena, sorri, aguarda. O som é bom.
Flávio Dornelles, microfone suspenso. Como personagem, recepciona a plateia daquela noite. Leva-nos até o primeiro encontro. Ali, sagacidade do prof. Adriano Moraes, vimos o dito. Gregos, arte popular, academia... Prosseguir é preciso. Prosseguir é questionar...
Cautelosos, curiosos, passos no escuro. Abre-se o véu, concha de vidro, útero transparente, bolha estética.
Nudez acrobática. Arauto que se contorce, retorce, voa, revida olhares. Ao corpo nu resta despir a criação. Se já não há o que ver, basta ouvir... O corpo da linguagem, num tratado que revira códigos. Teatro-castigo expele o acrobata das palavras. Espectadores em pé...
Menina, mulher, Frida Clown. A brincadeira pueril, a voz dos gestos, Lucia Berndt declama, cala, corre, mira espelho que reflete espectadores à espera de um código...
Desce escada, equilibra-se sobre tonel. Na boca, torrente poética que apela ao desconforto. Maurício Rodrigues, traje em frangalhos, sobe estrados, desce, pendura-se.
Lady MacBeth aparece num extremo do galpão. Reverencia o altar da sua dor. Lamentos à luz de velas. Joice Lima exaspera, polifônica.
Espectadores entreolham-se, desviam olhares, tateiam o próximo passo... Peregrinos num labirinto de mil vozes. Abandonados ao seu peso, o corpo desconfortável não acompanha ideias nem ideais.
Sob o foco da lâmpada, ela está sentada. Formal, acende cigarro. Valéria Fabres mira os mais próximos. Destila o segredo da “professora” lasciva. Fulmina com detalhes. Nas palavras, corpo que não se conforma, pede, deseja. Confidencia prazer, revela o que não se diz.
Encontro, fragmento, cena, calvário, estão pontuados por trilha ao vivo. Sonoridades, percussão, efeitos. Nalguns momentos, a batida sobrepõe vozes. Nalguns momentos, o
som é o cenário... Como “cenógrafos” sonoros, Daniel Medeiros, Cleber Vaz e Eugênio Bassi.
Partida de futebol, tumulto, protesto, atentado, à frente o invisível é turbulento. Os espectadores, Inácio Schardosim e Patrícia Vaz, pulam, manifestam-se, inquietam-se. Porém, estão à margem. Movimentam-se no interior de uma estrutura de metal, que tanto remete à plateia quanto a impossibilidade de protagonizar. Somos torcedores, reagimos ao que chega pelo olhar. Espectadores não interferem, respondem para o nada. Fantoches das sombras. E os espectadores que desviam dos estrados, espiam entre as frestas dos obstáculos?
Ninguém avisou, o espetáculo acabou. Lentamente, desconfiando, público arreda o “encerado” e vislumbra atores, equipe técnica. À saída, aguardam pela despedida. Sobre tablado, perfilados, posicionam-se diante dos espectadores daquela noite. Por lá, Beatriz Araújo, Sheila Hameister, Luiz Dalla Rosa, Augusto, Deisi...
Adriano menciona propósitos. Questionamentos, ressalta. No local que já sediou o Tholl, arte muito além da pirotecnia, pulos e malabares.
Construção física de um curso que, até pouco tempo parecia distante. Desconstrução lírica de uma estética exausta. Muitos sons, imagens polifônicas. E o número 2, quais sons? Tantas palavras para quais mensagens? E depois das mensagens? E palavras são piruetas? E a tragédia capitalista virou comédia? E o oprimido virou chavão estético? Espectadores... de quem?
Sem tempo, sem palco, sem assentos. Sem vergonha de reinventar, possibilidades reviradas no galpão de cada espectador.
Ana Alice Muller como Jocasta. Célio Soares Jr. como Édipo. Neusa Kuhn como artista de rua. Vanessa Martins, a boneca-criança.
Equipe também com Gê Fonseca e Larissa Martins (cenários, figurinos e adereços), Elias Pintanel e Mauricio Mezzomo (atores convidados), Éderson Pestana (contra-
regra), Luis Carlos Ramos Heinrich, Éderson (logística e administração do espaço), Cleomar, Diego, Alisson, Luis Fernando, Adão, Roger, Luis “Toco” Ismar, Cauê, Fernando, Niltom “Sorriso” (serviços gerais), Giovani, Tiago (pintores), Selmar (eletricista), Vanessa (limpeza), Elenara, Suellem, Silva, Michel, José Carlos e Alex (portaria/segurança).

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Teatro de Rua Requer Fôlego e Técnica

         A tarde era ensolarada, a temperatura agradável e a Praça Coronel Pedro Osório estava repleta de pessoas que esperavam ansiosamente em frente ao Chafariz das Nereidas para assistirem ao espetáculo “A Bola e a Roda”, no dia 11 de Junho de 2011. Um pouco antes de escurecer, os músicos Tato Ribeiro e Zé Menna surgiram no palco apresentando seus personagens Auscultador e Viajante.

        O espetáculo conta a história de dois indivíduos que levam suas vidas passeando pelo universo, levando música e poesia aos locais aonde chegam com seu veículo de transporte. O personagem Auscultador é uma espécie de cientista que conserva em pequenos frascos alguns sons emitidos ao redor do mundo. Já o Viajante, é um inventor que roda o planeta criando lugares para suprir a sua necessidade de descobrir novos espaços.

        Logo que chegávamos à praça, percebíamos uma estrutura cênica montada ao lado do chafariz contendo uma espécie de bicicleta, com uma estrutura conjugada que lembrava uma barraca de vendedores ambulantes. Assim que o espetáculo inicia e aquela estrutura nos é revelada, percebemos que existe uma série de obras de arte produzidas por diversos artistas e que compõem uma espécie de souvenires arrecadados durante as viagens dos personagens. Além disso, dentro dessa estrutura ainda continham todos os elementos de cena que seriam utilizados pelos artistas durante a peça.

        Com uma intenção de direcionar esse espetáculo ao público infantil, percebia-se que a opção de explorar cores primárias e uma paleta diversificada pretendia chamar atenção desses espectadores não apenas para os elementos de cena, mas, também, para o figurino. Apesar de serem bastante ilustrativos e demonstrarem que havia um trabalho de concepção com o intuito de criar uma identidade estética ao espetáculo, talvez a maneira como tenham sido confeccionados não tenha conseguido imprimir a noção de identificação que o universo imaginário infantil exige. Essa percepção ficou evidente, pois a sobriedade dos figurinos se sobrepôs à criatividade da proposta.

        Se o espetáculo fosse apenas um show com músicas de temática infantis, teria funcionado com muito mais força. Digo isso, pois a trilha sonora, originalmente composta pelos dois intérpretes, agradava facilmente à plateia, em especial às crianças presentes. Com rimas e refrões interessantes que dialogavam diretamente com o lúdico infantil, as músicas também prendiam a atenção dos adultos ali presentes. Entretanto, como dizemos em teatro: “A peça não saiu do palco” e, assim como a peça, também “As músicas não saíram do palco”. De certa forma, isso frustrou a plateia infantil que estava ávida e aberta ao diálogo cênico com os intérpretes. Porém, acredito que o nervosismo da estréia, o fato de ser uma apresentação na rua e a própria linguagem teatral, tenham afetado a relação artista x espectador. Com isso, os músicos não conseguiam levar o jogo cênico a uma relação de diálogo direto com a plateia, assim como o teatro de rua necessita.

        A partir do momento em que os artistas levam seus espetáculos às ruas, devem estar aptos e alertas a todas as possibilidades de relação que serão geradas com as pessoas que por ali passarem. Não apenas isso, teatro na rua precisa ser feito por atores muito bem preparados físico e vocalmente, além de estarem sempre alertas a todas as situações e imprevistos que a rua pode lhes oferecer. Além disso, teatro de rua exige time e disponibilidade para o jogo cênico com os espectadores, a fim de que eles se interessem pela história que será apresentada e decidam parar para assisti-la. Infelizmente, faltaram alguns desses aspectos em “A Bola e a Roda”, pois os intérpretes não conseguiam estabelecer uma relação de diálogo com a plateia, nem tampouco tinham fôlego e disponibilidade física para sustentarem um espetáculo com essa proposta. Talvez, isso se deva ao fato desse elenco não ser composto por atores. A qualidade musical da trilha sonora é inquestionável, porém a teatralidade da encenação ficou a desejar.

        No entanto, apesar do espetáculo ter uma boa proposta de concepção estética e uma ótima trilha sonora, ele não funcionou como espetáculo teatral. Todavia, não podemos deixar de elogiar a produção do espetáculo que conseguiu mobilizar uma grande quantidade de profissionais das mais diversas mídias para cobrirem a apresentação. Além disso, há que se ressaltar o valor do esforço e empenho de uma produção genuinamente pelotense montada de forma independente, sem patrocínios, nem apoios institucionais.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.
vagnervarg@yahoo.com.br www.ccetp.blogspot.com

domingo, 12 de junho de 2011

O Palco Não é Lugar Para os Sem Talento

        Os temores, conflitos e ansiedades que perseguem os atores antes de entrarem em cena, conduzem ao mote inicial do espetáculo “O Terceiro Sinal”, apresentado pela Cia BR-116, no dia 02 de junho, no Teatro Guarany, em Pelotas/RS. O monólogo conta com a brilhante atuação da atriz Bete Coelho, texto de Otávio Frias Filho e direção de Ricardo Bittencourt.

        O terceiro sinal foi convencionado no meio teatral como o último toque para avisar ao elenco e plateia que o espetáculo irá começar. Nesse sentido, o autor Otávio Frias Filho resolve descrever como são vividos pelos atores os últimos momentos antes de entrarem em cena. Para tanto, Otávio se colocou na experiência de ingressar no elenco de uma peça de teatro, três dias antes da apresentação, dirigida por um dos maiores diretores de teatro do Brasil: José Celso Martinez Correa. Em sua vivência, que originou o livro “Queda Livre: Ensaios de Risco”, o escritor não apenas retrata o trabalho dos atores, bem como desmistifica ao grande público certos detalhes dessa profissão, ao revelá-los para o leitor não apenas como uma mera descrição, mas, também, tecendo uma reflexão sobre o exercício da profissão de ator.

        Em uma das frases ditas pelo personagem, o autor refere que “O palco é o lugar onde a humanidade discute os seus maiores problemas”. Assim, por meio de uma reflexão das dificuldades e peculiaridades do trabalho dos atores, Otávio oferece ao espectador o estímulo para repensarem seus dilemas diários e de como se colocar à prova em novas experiências. A adaptação do livro para o teatro foi muito bem feita, extraindo de maneira precisa o que era essencial para contar essa vivência, transformando o autor do livro em personagem-ator de uma peça de teatro.

        Obviamente que o público em geral se diverte com o espetáculo, pois a história prende a atenção do espectador, apresentando um universo dos bastidores que é desconhecido para as pessoas que não lidam com teatro. Porém, acredito que, para atores e pessoas ligadas às artes cênicas, a peça forneça uma empatia a mais, uma vez que a identificação com várias situações vividas por aquele ator são inevitáveis. Além disso, são citados alguns referenciais teóricos que explicam o trabalho dos atores muitas vezes de maneira paradoxal, ao passo que somente os profissionais dessa área conseguem entender esse ofício. Entretanto, o riso se torna inevitável a qualquer pessoa, tanto para aqueles que estão conhecendo pela primeira vez os dilemas do trabalho dos atores, quanto dos profissionais desse setor que se vêem retratados virtuosisticamente por meio da excelente atriz Bete Coelho.

        A direção de Ricardo Bittencourt é precisa e limpa. Em um espetáculo que utiliza a metalinguagem para falar do ofício teatral, o diretor não apenas dirige as cenas, como também está presente durante o espetáculo. Evidentemente, dirigir Bete Coelho deve trazer uma certa tranqüilidade ao diretor, uma vez que há a certeza de que a atriz irá conduzir qualquer situação com maestria. No entanto, quando se está diante de um talento dessa qualidade, somente um grande diretor para conseguir chegar ao nível de qualidade do trabalho dessa artista. Porém, Ricardo se define como ator e, acredito que justamente por isso, sua mão foi tão precisa nesse espetáculo, já que a discussão proposta se refere às peculiaridades do dia a dia desses profissionais.

        O fato do cenário utilizar em alguns momentos as projeções como seu aliado, desvelar os bastidores de rotunda e coxias trouxe ao espectador a ilustração de que a peça versaria por meio de uma metalinguagem. Desse modo, o público percebia quando o ator estava em cena, quando saía aos bastidores durante a apresentação e quando estava fora do palco antes da performance. Esse jogo cênico criava uma empatia envolvente com o público que não dava vontade de piscar para não perder nenhuma das situações. A dinâmica criada pelo diretor, mesclando as cenas de maneira ágil, afastava totalmente o ar monótono que costuma ocorrer em alguns monólogos. Além disso, o fato de Bete contracenar rapidamente com o diretor e equipe técnica durante o espetáculo propiciava um olhar diferente e distanciado do convencional aos espectadores. Outro aspecto muito preciso foi a iluminação. De concepção muito simples, porém limpa, precisa, extremamente orgânica e funcional com as cenas. No caso desse espetáculo, podíamos perceber que a iluminação foi composta com o intuito de fazer parte da dramaturgia cênica, desempenhando um papel muito importante na criação dos ambientes e situações ocorridas ao longo do espetáculo.

        Agora, tecerei alguns comentários sobre Bete Coelho. Não posso iniciar essa parte, sem citar uma frase do espetáculo que me apropriei para intitular esse texto: “O Palco Não é Lugar Para os Sem Talento”! Nesse caso, talento, competência, profissionalismo, comprometimento e dedicação são o que mais sobram em Bete Coelho. A atriz consegue brilhar em cena, não pela vaidade que muitos atores medíocres usam como sua única ferramenta de auto-afirmação, mas Bete brilha por meio de seu virtuosismo cênico. Como diríamos de maneira coloquial: “Sobrou atriz no palco!”.

        Bete Coelho possui um trabalho muito sofisticado no que se refere ao primor de sua atuação. O seu preparo físico e vocal fica evidente, ao passo que se percebe que o resultado de toda essa disciplina se materializa em um trabalho limpo, capaz de envolver o público durante todo o espetáculo. Talvez essa precisão técnica seja fruto de sua formação artística, aliada ao trabalho com grandes diretores de teatro brasileiro, tais como José Celso Martinez Correa, Gerald Thomas e Antunes Filho. Observando o trabalho de Bete, podemos perceber que existem referenciais de teóricos do teatro como C. Stanislavski, J. Grotowski, E.Barba, dentre outros, que propõem certas metodologias de trabalho para que os atores desenvolvam técnicas que os possibilitem certas habilidades cênicas. Todavia, a atriz sabe utilizar esses referenciais, aliados a algumas técnicas de dança e canto para que todo o seu preparo seja sutil ao olhar dos espectadores, mas que consiga criar uma atmosfera de encantamento e empatia com o público.

        Em cena, o personagem do espetáculo chega a citar que leu esses autores e, em função disso, achava que bastava ter o conhecimento teórico de algumas leituras sobre teatro para lhe capacitar como profissional das artes cênicas. Esse parece ser o primeiro grande equívoco de um leigo a se julgar como ator. Muitas pessoas, por inexperiência e falta de preparo teatral que não seja meramente teórico, costumam vivenciar as angústias tão bem descritas pelo autor da peça e muito bem retratadas no personagem do espetáculo. Alguns profissionais equivocados costumam abrir esses livros e muitos outros de referenciais teóricos em teatro, pensando que basta ler os exercícios para saberem aplicá-los e que os resultados a partir disso serão formadores de um artista. Ator é aquele profissional que tem o embasamento teórico para fundamentar o seu discurso, mas também é aquele profissional que ensina aquilo que sabe, que já viveu, experienciou e que, a qualquer momento, pode chegar ali e mostrar como se faz.

        O problema de um não-artista se intitular no pioneirismo da prática teatral entre seus colegas, incorre nos equívocos cênicos e de concepção do que é o trabalho de um ator. Como exemplo dos autores citados anteriormente, se alguém pegar os seus livros, poderá sair por aí e passar horas e horas trancado em salas de ensaio gritando, se contorcendo, fazendo malabarismos, criando movimentos que são apenas repetitivos, porém vazios de matriz para o trabalho de um ator. Somente um profissional que já viveu essas situações em seu corpo e já as colocou à prova para o público consegue propor o elo de ligação entre a teoria e a realidade da vida prática de um ator. Senão, tudo fica no limiar da suposição e do equívoco. Além disso, muitas pessoas inexperientes nas artes cênicas costumam ler esses referenciais teóricos e pensar que eles são leis irrevogáveis. Entretanto, esse é justamente o primeiro pedido que todos os teóricos de teatro não fazem, uma vez que eles sempre se referem às técnicas e pensamentos que foram úteis às descobertas de seu trabalho, naquele contexto histórico e social, a partir disso, cada um abarca o seu repertório estético e vai em busca de suas verdades. Um bom trabalho em teatro não precisa estar exatamente nos moldes que você encontrará em um livro de teoria do teatro. Por esse motivo, ao observarmos Bete Coelho em cena, temos uma aula de como observar uma atriz com tanto material técnico disponível em seu corpo e tão bem utilizado.

        Nada como o dia a dia em cima de um palco e na presença dos espectadores para formar um ator. O público não é idiota e sabe muito bem perceber quando uma pessoa não é competente e não serve para o ofício artístico. Bete Coelho serve tanto de exemplo para esse caso que consegue interpretar um personagem masculino, não-ator, sair e entrar do personagem fazendo com que o público perceba por meio desse distanciamento cênico suas inúmeras capacidades artísticas. Essa é a magia do trabalho de um profissional competente nas artes cênicas. A capacidade de conseguir imprimir verdade e presença cênica de maneira tão trabalhadas que pareçam naturais, possibilita ao espectador abrir o seu imaginário àquele universo criado pelo evento teatral.

        Como comecei esse texto dizendo que o palco não é lugar para os sem talento, poderei finalizá-lo dizendo que, se eu pudesse criar uma lei, ela diria que no palco só poderiam pisar atores com o talento, técnica e preparo no mesmo nível de Bete Coelho. Ademais, espero que o público pelotense possa ter o privilégio de assistir a outros espetáculos com artistas dessa qualidade durante o ano inteiro.

MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 – Crítico Teatral.
vagnervarg@yahoo.com.br www.ccetp.blogspot.com