Acabo de voltar da apresentação da performance teatral Cai-o Qorpo em Satolep, no Centro Cultural Casa do Joquin. Com uma proposta de fazer um link entre a obra dos escritores gaúchos Caio Fernando Abre e Qorpo Santo, o diretor Andruz Vianna propõe uma discussão sobre uma situação de loucura interpretada pelo ator Nonô.
O espaço da Casa Joquin favorece a proposta de experimentações artísticas alternativas que não seriam possíveis em espaços teatrais dominados pela visão mercadológica dos teatros convencionais da cidade. Obviamente, por se tratar de um espaço alternativo, não dispõe do mesmo aparato técnico e geométrico dos tradicionais teatros pelotenses. Entretanto, este fato não desmerece em nada a qualidade do local. Muito pelo contrário, ele pressupõe novas possibilidades artísticas, um local em que os artistas podem dar vazão a sua necessidade de criação artística desvinculada da opressão comercial. Eu já conhecia a Casa do Joquin por ser um local com festas diferenciadas, para um público que não se enquadra nas normatizações de outros lugares da cidade e por apresentações artísticas com várias atividades simultâneas. Porém, ao entrar lá, nesta noite de 22 de maio, percebi um espaço que me remeteu muito às experimentações artísticas que são feitas no Casarão do Belvedére, em São Paulo/SP. Na capital paulista, um espaço muito semelhante, é utilizado por um grupo de artistas para apresentações e debates sobre temas que não teriam visibilidade em outros locais.
Outro fato que me chamou atenção foi a tímida movimentação de público. Por se tratar de um espaço alternativo, por si só, a Casa do Joquin não possibilita que ocorram apresentações para um público numeroso. Todavia, o que se observa é que, mesmo assim, o número de expectadores ainda estava muito aquém das possibilidades do local. Este fato não se justifica em uma cidade com mais de cem estudantes de graduação em teatro, fora os alunos em nível técnico, médio e fundamental que se interessam por teatro, pois não haviam nem 10 pessoas no local. Vou mais além, pois, Pelotas costumava ser conhecida por ser uma cidade cultural, com muitos artistas em diversas áreas, muitos estudantes das mais diversas linguagens, com pessoas muito cultas e educadas. No entanto, onde estão estas pessoas?
Além disso, numa cidade com mais de 300.000 habitantes, não existe explicação plausível que justifique o sumiço do público local às apresentações artísticas que não sejam feitas pelos artistas advindos da mídia televisa. Entretanto, centrarei meus comentários aos estudantes de artes desta cidade, pois não basta apenas conhecer os aspectos teóricos e práticos de arte, cabe ao artista frequentar outras linguagens artísticas, no intuito de ampliar o seu pool de referenciais e as possíveis reflexões que isso possa vir a trazer ao seu trabalho.
Alguns leitores podem tentar justificar este fato pelo valor do ingresso cobrado para apresentações artísticas na cidade. Neste sentido, saliento que o valor do ingresso cobrado pelo Centro Cultural Casa do Joquin era simbólico, irrisório perto dos valores cobrados pelos ingressos de jogos de futebol, das boates da cidade, ou de qualquer dose de bebida alcoólica vendida nas festas pelotenses. Por este motivo, justificativas financeiras não explicam a ausência de público em apresentações de artistas locais. Esclarecido isso, volto a insistir no fato de que estudantes de artes também precisam assistir arte, em especial, neste caso, os estudantes de teatro desta cidade. Como estabelecer um senso crítico, uma amplitude de discussões se estes futuros artistas ficam atrelados às concepções de arte que lhes são passadas por seus professores e pelas fontes bibliográficas que lhes embasam? Não estou aqui para referir quem está certo de quem está errado, ou de que os conhecimentos passados pelos mestres não sejam importantes. Muito pelo contrário, acredito que a formação é necessária, um dever e obrigação para toda pessoa que deseja trabalhar com arte. Porém, percebo que os estudantes se contentam, ou se acomodam, em apenas receber os conhecimentos dentro das instituições educativas, não indo buscar novas fontes de reflexão fora dos muros dos centros de formação, quando as expressões artísticas não estão sendo feitas por artistas frutos da mídia de massa.
Agora, sobre a apresentação da performance em questão. Para aqueles que acreditam que irão ver a representação de algum espetáculo dos dois escritores gaúchos, ou de alguma apresentação textual sobre a obra deles, esclareço que a proposta do diretor é o de expor uma situação performática, baseada num contexto que traça como ponto em comum uma situação de loucura. A proposta é interessante e a trilha sonora adequada ao evento. Porém, acredito que faltou um pouco de diálogo entre a proposta do autor e a necessidade de um referencial prévio sobre a obra dos dois escritores para que o público pudesse ser tocado pela representação. Observa-se uma representação nada realista que não ultrapassa a “barreira” público x ator. Este fato pode ser explicado pela inexperiência do grupo, ou pelo próprio processo em que eles estejam desenvolvendo. Mas, preciso comentar sobre aquilo que me foi apresentado naquele momento. Em teatro, a relação público-ator precisa ser orgânica. No entanto, observa-se uma boa disponibilidade cênica de Nonô que necessita ainda ser lapidada. Neste sentido, acredito que o exercício e a experimentação possam ser um caminho. Todavia, não basta apenas experimentarmos, exercitarmos, criarmos, precisamos ter um embasamento teórico consistente que embase e fundamente o nosso discurso, ampliando os horizontes das propostas artísticas.
Portanto, finalizo este texto instigando aos estudantes de arte desta cidade para que tenham coragem de se expor às experimentações e exercícios artísticos fora das propostas acadêmicas, no intuito de que possam fomentar discursos e reflexões com propostas alternativas às usuais. Além disso, espero que meus escritos os incomodem e os façam refletir sobre novas possibilidades teatrais que não àquelas do século XIX, tradicionalmente levadas aos palcos pelotenses ainda nos dias de hoje. Acredito que todas as formas de expressão valham à pena e sejam necessárias. Teatro concebido conforme às normas, estilos, linguagens e poéticas de outros séculos cumprem o seu papel na sociedade. Porém, para o artista contemporâneo cabe a liberdade de ousar e ter a inteligência para experimentar possibilidades alternativas às convencionais.
MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 -Integrante do Clube dos Comentaristas de Espetáculos Teatrais de Pelotas (CCETP).
vagnervarg@yahoo.com.br
quinta-feira, 27 de maio de 2010
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Acadêmicos de teatro criam grupo de Teatro do Oprimido
Peço licença aos demais integrantes do Clube para divulgar aqui o artigo abaixo, publicado na edição deste sábado (27 de fevereiro), no Diário da Manhã. Um abraço a todos. Joice.
Experiência no Dunas motiva acadêmicos de Teatro da UFPel a
criar grupo de Teatro do Oprimido
Na tarde do dia 6 de fevereiro, um sábado, um grupo de acadêmicos do curso de Teatro Licenciatura da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), coordenados pela professora Fabiane Tejada, levou à comunidade do Loteamento Dunas uma experiência diferente. Diferente não só para os moradores, como também para eles próprios, que pela primeira vez colocavam em prática o Teatro-Fórum, uma das técnicas desenvolvidas pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal, que morreu em maio do ano passado, dentro do Teatro do Oprimido – assunto estudado nas aulas de Teatro na Educação III, ministradas por Fabiane. As encenações, que contaram com participação ativa dos moradores, integraram a programação do Fórum Social de Periferias.
A proposta de Boal é simples: o grupo apresenta uma cena (pré-definida e ensaiada pelos atores) em que um ou mais personagens sofre uma situação de opressão. O público assiste. O grupo, então, torna a apresentar a cena, mas, desta vez, qualquer pessoa da plateia tem o poder de interromper a ação e assumir o papel do personagem oprimido, mostrando de que maneira, na sua opinião, ele deveria agir para sair da situação de opressão – para isso, o “espect-ator” só tem que erguer o braço e dizer em voz alta a palavra “para” e a seguir tomar o lugar do personagem.
No Dunas, o grupo apresentou duas cenas. Uma delas, no “plenarinho” do Centro de Desenvolvimento do Dunas (CDD), mostrava uma situação de preconceito social: uma mulher simples entra em uma loja para comprar um vestido e é destratada pelo vendedor, que julga que ela não terá condições de comprar a peça de roupa desejada e, por outro lado, privilegia uma cliente que “parece ser rica”; a mulher simples também é discriminada pelo segurança, que a olha de modo desconfiado, como se tivesse certeza que ela irá roubar alguma coisa.
A segunda cena, apresentada na calçada, ao lado dos estandes de produtos artesanais, bem perto do CDD, caracterizou uma situação de machismo e autoritarismo: uma adolescente, articulada e líder na escola, é proibida pelo pai de comparecer às reuniões do grêmio estudantil e com a direção da escola, na qual proporia a aquisição de mais livros para a biblioteca do educandário, porque ele entende que “lugar de mulher é em casa, cuidando dos afazeres domésticos”; o irmão, igualmente machista, mantém a mesma postura e a mãe, conservadora, também é cúmplice da opressão.
“A receptividade foi surpreendente. Superou todas as nossas expectativas. As pessoas se identificavam e se envolviam de tal maneira com as situações apresentadas que pareciam esquecer que era teatro”, comentou a acadêmica Lucia Berndt, uma das proponentes do exercício. “A gente percebia que eles estavam ‘se vendo’ ali, nas cenas. Torciam e vibravam quando o oprimido reagia, como se celebrassem uma vitória coletiva, entravam na cena com verdade... Aquilo emocionou a gente”, recordou a professora Fabiane, que disse estar muito contente pelos alunos valorizarem esta forma de teatro e pelo despojamento com que buscaram conhecer a história do lugar para compor as cenas apresentadas. “Os estudantes conseguiram adaptar-se ao momento, a mudanças de última hora e às reações do público. Esse não é um trabalho para qualquer ator e o grupo desempenhou muito bem, foi muito bom mesmo”, elogiou.
Célio Soares Júnior confessou que estava receoso da reação das pessoas, sobretudo porque os personagens que ele tinha que interpretar nas cenas eram ‘odiosos’. “Eles tinham que ser bem antipáticos justamente para estimular as pessoas a reagir. Meu medo era que confundissem o ator com o personagem, mas, felizmente, isso não aconteceu. Tudo funcionou muito bem. No início eu acreditava que o teatro poderia modificar a sociedade, com o passar do tempo, acabei por perder essa crença, mas este trabalho me ajudou a recuperá-la. A troca de experiências com o público é sensacional”, disse.
“O teatro-fórum é uma metodologia riquíssima para desenvolver o caráter emancipador. Acho que atingimos o objetivo do Boal, de usar o teatro para estimular as pessoas a se posicionarem, ajudá-las a desenvolver fórmulas para resistir aos preconceitos... Aquelas cenas faziam tanto sentido para elas, as pessoas ficavam tão motivadas com a situação, tão indignadas, que não tinham timidez nem constrangimento, simplesmente se ‘atiravam’ no teatro para ‘arrumar o que estava errado’. Foi muito bacana”, ponderou a acadêmica Roberta Bandeira, que teve a iniciativa de levar a proposta ao Dunas no Fórum Social de Periferias.
“Eu me apaixonei por este trabalho porque é o que eu procuro fazer no meu dia-a-dia, me colocar socialmente, como cidadão, não ficar só como espectador. Desde o início do curso a gente falava em teatro como uma ferramenta para transformação social, mas ficava só na teoria. Pela primeira vez, a gente colocou isso na prática. Agora temos certeza que podemos fazer teatro e, ao mesmo tempo, ser transformadores sociais”, completou Lucia.
“Esta proposta é diferente porque não tem nada a ver com vaidade, o ator que está ali não espera receber elogios pela sua performance, ele sabe que é apenas uma peça no tabuleiro, que está a serviço de algo muito maior. A gente sabe que algumas pessoas tem maior facilidade para expor suas ideias e participar da ação cênica. Mas o que mais me motiva é pensar que mesmo aquelas que não entrarem na cena vão levar pra casa a reflexão sobre a situação exposta e, quem sabe, repensar as suas posturas de vida ou ajudar algum conhecido que esteja vivendo algo parecido. Acho que o melhor do teatro-fórum é isso: quem está assistindo, de uma forma ou de outra, está participando”, disse a acadêmica Joice Lima.
Entusiasmados com o resultado da experiência, os acadêmicos Célio, Joice, Lucia, Roberta e Paulo Borba, decidiram sugerir a criação do Grupo Teatro do Oprimido na Comunidade (TOCO/UFPel), com o intuito de levar o teatro-fórum e outras técnicas desenvolvidas por Boal às diversas comunidades de Pelotas. A professora Fabiane Tejada e o professor Paulo Gaiger, ambos do Instituto de Artes e Design, serão responsáveis pela coordenação deste projeto de extensão da UFPel, que deve começar as atividades em março.
Experiência no Dunas motiva acadêmicos de Teatro da UFPel a
criar grupo de Teatro do Oprimido
Na tarde do dia 6 de fevereiro, um sábado, um grupo de acadêmicos do curso de Teatro Licenciatura da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), coordenados pela professora Fabiane Tejada, levou à comunidade do Loteamento Dunas uma experiência diferente. Diferente não só para os moradores, como também para eles próprios, que pela primeira vez colocavam em prática o Teatro-Fórum, uma das técnicas desenvolvidas pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal, que morreu em maio do ano passado, dentro do Teatro do Oprimido – assunto estudado nas aulas de Teatro na Educação III, ministradas por Fabiane. As encenações, que contaram com participação ativa dos moradores, integraram a programação do Fórum Social de Periferias.
A proposta de Boal é simples: o grupo apresenta uma cena (pré-definida e ensaiada pelos atores) em que um ou mais personagens sofre uma situação de opressão. O público assiste. O grupo, então, torna a apresentar a cena, mas, desta vez, qualquer pessoa da plateia tem o poder de interromper a ação e assumir o papel do personagem oprimido, mostrando de que maneira, na sua opinião, ele deveria agir para sair da situação de opressão – para isso, o “espect-ator” só tem que erguer o braço e dizer em voz alta a palavra “para” e a seguir tomar o lugar do personagem.
No Dunas, o grupo apresentou duas cenas. Uma delas, no “plenarinho” do Centro de Desenvolvimento do Dunas (CDD), mostrava uma situação de preconceito social: uma mulher simples entra em uma loja para comprar um vestido e é destratada pelo vendedor, que julga que ela não terá condições de comprar a peça de roupa desejada e, por outro lado, privilegia uma cliente que “parece ser rica”; a mulher simples também é discriminada pelo segurança, que a olha de modo desconfiado, como se tivesse certeza que ela irá roubar alguma coisa.
A segunda cena, apresentada na calçada, ao lado dos estandes de produtos artesanais, bem perto do CDD, caracterizou uma situação de machismo e autoritarismo: uma adolescente, articulada e líder na escola, é proibida pelo pai de comparecer às reuniões do grêmio estudantil e com a direção da escola, na qual proporia a aquisição de mais livros para a biblioteca do educandário, porque ele entende que “lugar de mulher é em casa, cuidando dos afazeres domésticos”; o irmão, igualmente machista, mantém a mesma postura e a mãe, conservadora, também é cúmplice da opressão.
“A receptividade foi surpreendente. Superou todas as nossas expectativas. As pessoas se identificavam e se envolviam de tal maneira com as situações apresentadas que pareciam esquecer que era teatro”, comentou a acadêmica Lucia Berndt, uma das proponentes do exercício. “A gente percebia que eles estavam ‘se vendo’ ali, nas cenas. Torciam e vibravam quando o oprimido reagia, como se celebrassem uma vitória coletiva, entravam na cena com verdade... Aquilo emocionou a gente”, recordou a professora Fabiane, que disse estar muito contente pelos alunos valorizarem esta forma de teatro e pelo despojamento com que buscaram conhecer a história do lugar para compor as cenas apresentadas. “Os estudantes conseguiram adaptar-se ao momento, a mudanças de última hora e às reações do público. Esse não é um trabalho para qualquer ator e o grupo desempenhou muito bem, foi muito bom mesmo”, elogiou.
Célio Soares Júnior confessou que estava receoso da reação das pessoas, sobretudo porque os personagens que ele tinha que interpretar nas cenas eram ‘odiosos’. “Eles tinham que ser bem antipáticos justamente para estimular as pessoas a reagir. Meu medo era que confundissem o ator com o personagem, mas, felizmente, isso não aconteceu. Tudo funcionou muito bem. No início eu acreditava que o teatro poderia modificar a sociedade, com o passar do tempo, acabei por perder essa crença, mas este trabalho me ajudou a recuperá-la. A troca de experiências com o público é sensacional”, disse.
“O teatro-fórum é uma metodologia riquíssima para desenvolver o caráter emancipador. Acho que atingimos o objetivo do Boal, de usar o teatro para estimular as pessoas a se posicionarem, ajudá-las a desenvolver fórmulas para resistir aos preconceitos... Aquelas cenas faziam tanto sentido para elas, as pessoas ficavam tão motivadas com a situação, tão indignadas, que não tinham timidez nem constrangimento, simplesmente se ‘atiravam’ no teatro para ‘arrumar o que estava errado’. Foi muito bacana”, ponderou a acadêmica Roberta Bandeira, que teve a iniciativa de levar a proposta ao Dunas no Fórum Social de Periferias.
“Eu me apaixonei por este trabalho porque é o que eu procuro fazer no meu dia-a-dia, me colocar socialmente, como cidadão, não ficar só como espectador. Desde o início do curso a gente falava em teatro como uma ferramenta para transformação social, mas ficava só na teoria. Pela primeira vez, a gente colocou isso na prática. Agora temos certeza que podemos fazer teatro e, ao mesmo tempo, ser transformadores sociais”, completou Lucia.
“Esta proposta é diferente porque não tem nada a ver com vaidade, o ator que está ali não espera receber elogios pela sua performance, ele sabe que é apenas uma peça no tabuleiro, que está a serviço de algo muito maior. A gente sabe que algumas pessoas tem maior facilidade para expor suas ideias e participar da ação cênica. Mas o que mais me motiva é pensar que mesmo aquelas que não entrarem na cena vão levar pra casa a reflexão sobre a situação exposta e, quem sabe, repensar as suas posturas de vida ou ajudar algum conhecido que esteja vivendo algo parecido. Acho que o melhor do teatro-fórum é isso: quem está assistindo, de uma forma ou de outra, está participando”, disse a acadêmica Joice Lima.
Entusiasmados com o resultado da experiência, os acadêmicos Célio, Joice, Lucia, Roberta e Paulo Borba, decidiram sugerir a criação do Grupo Teatro do Oprimido na Comunidade (TOCO/UFPel), com o intuito de levar o teatro-fórum e outras técnicas desenvolvidas por Boal às diversas comunidades de Pelotas. A professora Fabiane Tejada e o professor Paulo Gaiger, ambos do Instituto de Artes e Design, serão responsáveis pela coordenação deste projeto de extensão da UFPel, que deve começar as atividades em março.
Duas peças em Sampa
Estive na capital paulista no início de fevereiro, por quatro diazinhos, e assisti a duas peças teatrais. Embora a proposta deste Clube é que se comente os espetáculos que passam por Pelotas, achei que valia a dica. Aqui vai:
*"Empoeirados", no Sesc da Paulista (assisti dia 9 de fevereiro)
Texto: Gero Camilo. Direção: Cristiano Karnas. Com Ed Moraes e Armando Amare.
A história de dois jovens atores que viajam pelo Brasil em busca de trabalho e, enquanto isso, divagam sobre a peça que gostariam de montar.
A ideia em si era boa, mas, na minha opinião, não funcionou.
Pareceu-me apenas uma oportunidade para dois jovenzinhos se exibirem, mostrarem seu domínio de corpo e voz, com frustradas tentativas de humor fácil. Não tinha texto - quer dizer, tinha, mas não “pegava o espectador”, além de ser confuso. Não me emocionou nem por um segundo (e olha que me emociono fácil).
*Anatomia frozen, no Espaço Parlapatões (assisti dia 9 de fevereiro)
Uma psiquiatra estuda um assassino em série, de menininhas. Logo a mãe de uma das vítimas encontra o psicopata para uma última conversa.
Compensou a frustração da primeira peça assistida. Uau. Muito boa mesmo. Texto fortíssimo, da inglesa Bryony Lavery, com direção de Márcio Aurélio. Desempenho irretocável dos dois atores, Joca Andreazza e Paulo Marcello, que interpretaram três personagens. Não tinha cenário, e nem precisava. O figurino era enjambrado, mas funcionava muito bem. O ator que fazia a psiquiatra fazia a transformação em cena, simplesmente tirava acessórios da psiquiatra (luvas, botas, máscara, touca), colocava um risco de batom na boca e lá estava a mãe da menininha assassinada pelo psicopata. A iluminação e a música, de suspense, completavam os detalhes. Um excelente trabalho (ainda que, na minha opinião, as explicações de abuso sexual que o psicopata sofreu na infância sobravam, acho que não precisava, é uma maneira de tentar justificar o comportamento dele que, na minha opinião, não é justificável). Valeu cada centavo dos R$ 30,00 do ingresso.
Este trabalho era apontado como um dos mais cotados no Guia Folha. Os mesmos atores estavam com outra peça ("Agreste"), também muito elogiada, mas não pude assistir porque só estava em cartaz no fim de semana e eu já não estaria lá. Uma pena.
Joice Lima – Integrante do CCETP, atriz e jornalista (com diploma!)
*"Empoeirados", no Sesc da Paulista (assisti dia 9 de fevereiro)
Texto: Gero Camilo. Direção: Cristiano Karnas. Com Ed Moraes e Armando Amare.
A história de dois jovens atores que viajam pelo Brasil em busca de trabalho e, enquanto isso, divagam sobre a peça que gostariam de montar.
A ideia em si era boa, mas, na minha opinião, não funcionou.
Pareceu-me apenas uma oportunidade para dois jovenzinhos se exibirem, mostrarem seu domínio de corpo e voz, com frustradas tentativas de humor fácil. Não tinha texto - quer dizer, tinha, mas não “pegava o espectador”, além de ser confuso. Não me emocionou nem por um segundo (e olha que me emociono fácil).
*Anatomia frozen, no Espaço Parlapatões (assisti dia 9 de fevereiro)
Uma psiquiatra estuda um assassino em série, de menininhas. Logo a mãe de uma das vítimas encontra o psicopata para uma última conversa.
Compensou a frustração da primeira peça assistida. Uau. Muito boa mesmo. Texto fortíssimo, da inglesa Bryony Lavery, com direção de Márcio Aurélio. Desempenho irretocável dos dois atores, Joca Andreazza e Paulo Marcello, que interpretaram três personagens. Não tinha cenário, e nem precisava. O figurino era enjambrado, mas funcionava muito bem. O ator que fazia a psiquiatra fazia a transformação em cena, simplesmente tirava acessórios da psiquiatra (luvas, botas, máscara, touca), colocava um risco de batom na boca e lá estava a mãe da menininha assassinada pelo psicopata. A iluminação e a música, de suspense, completavam os detalhes. Um excelente trabalho (ainda que, na minha opinião, as explicações de abuso sexual que o psicopata sofreu na infância sobravam, acho que não precisava, é uma maneira de tentar justificar o comportamento dele que, na minha opinião, não é justificável). Valeu cada centavo dos R$ 30,00 do ingresso.
Este trabalho era apontado como um dos mais cotados no Guia Folha. Os mesmos atores estavam com outra peça ("Agreste"), também muito elogiada, mas não pude assistir porque só estava em cartaz no fim de semana e eu já não estaria lá. Uma pena.
Joice Lima – Integrante do CCETP, atriz e jornalista (com diploma!)
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
A volta do palhaço
Faz alguns anos que o ator Alexandre Coelho trocou os palcos pelotenses pela carreira de ator na Europa. Neste meio tempo, o ator foi se aperfeiçoando na técnica de Clown, até fundar a Trupe Los Estupendos Estúpidos, com alguns atores europeus, na cidade de Granada, Espanha. Após a montagem de alguns espetáculos e a aquisição de uma sede própria para o grupo, onde além de apresentarem seus espetáculos ao público, ministram oficinas com ênfase nas técnicas de palhaço, Alexandre trouxe ao Brasil seu mais novo espetáculo intitulado MMM!!!
Como não poderia deixar de ser, Alexandre, ou Palhaço Goiaba, apresentou este espetáculo no dia 20 de Dezembro de 2009, no Teatro do Círculo Operário Pelotense (COP). Infelizmente, por se tratar de um domingo, poucas pessoas saíram de casa para prestigiar esta peça de teatro. Entretanto, apesar de não lotarem a plateia do Teatro do COP, o público presente se mostrou bastante caloroso com a apresentação do grupo europeu. Realmente, os pelotenses perderam o costume de colocarem o teatro como membro integrante do seu cardápio de lazer nos finais de semana, sobretudo aos domingos. Houve um tempo em que não importava o dia da semana, que os teatros desta cidade lotavam e, quando falo em teatros, não me refiro apenas ao Teatro Sete de Abril, ou ao Teatro Guarany, o Teatro do COP possuía um público assíduo que o lotava freqüentemente, fazendo com que a busca prévia por ingressos se tornasse uma constante. Atualmente, o que se observa nesta cidade é uma mobilização de marketing de massa intensa para divulgar espetáculos contendo atores de novela e celebridades do eixo Rio-São Paulo.
Quando algum destes espetáculos do centro do país se destina a esta cidade, diariamente, o público é bombardeado por anúncios em rádios, TVs, internet e mídia impressa. Não são poucas as homenagens e as atenções que a sociedade pelotense defere a estes artistas. Porém, a realidade atual mostra que o público não comparece aos teatros devido à crise financeira mundial, no entanto, apesar dos altos preços dos ingressos das produções cariocas e paulistas, os pelotenses não se inibem na hora de adquirir ingressos para toda a sua família comparecer ao evento social teatro que será muito divulgado nas colunas sociais dos jornais locais nas semanas que se seguem. Faço este relato para demonstrar que, em Pelotas, não há falta de público, nem de poder aquisitivo para possibilitar o acesso às apresentações artísticas. Então, por que não observamos os teatros pelotenses lotados, quando os espetáculos não apresentam artistas televisivos? Acredito que uma boa resposta a esta pergunta deveria também contemplar um peso sobre a mídia local em não divulgar os artistas locais, com o mesmo afinco com que o faz para artistas de fora da cidade. Digo isto, pois a formação de opiniões de massa costuma direcionar a sociedade local para que consuma os produtos artísticos que a mídia local julgue dignos de sua apreciação. No entanto, como ficam os artistas locais ante esta realidade? Como fica a auto-estima dos alunos das Faculdades de Dança e Teatro da Universidade Federal de Pelotas, (UFPEL) sabendo que precisarão participar de alguma produção televisiva do centro do país para que obtenham a devida divulgação de seus trabalhos em sua própria cidade?
A reflexão sobre este tema se faz importante à medida que nos damos conta de que, no Brasil, a supervalorização dos produtos importados demonstra um sentimento de inferioridade da população local, em relação aos estrangeiros. Deste modo, Pelotas não deixa de ser diferente. Neste aspecto, não sei se devo generalizar e dizer Pelotas, ou a mídia pelotense, pois é esta quem divulga e estimula o consumo dos produtos artísticos que freqüentam os palcos desta cidade. No meu ponto de vista, a supervalorização do que é produzido fora de nossa cidade, apenas demonstra o provincianismo de uma sociedade ambígua e contraditória, pois, como podemos observar este fato numa cidade que se auto-afirma no imaginário coletivo vangloriando-se de sua arquitetura e histórias construídas em um ambiente pregresso? Pelotas costuma enaltecer os seus doces, o refinamento de sua população e o alto gosto pela cultura. Entretanto, me parece que, para “adquirir sua cultura”, os pelotenses ainda continuam tendo que enviar seus filhos para estudarem na França, ou trazerem os espetáculos franceses para se apresentarem no idioma de origem nos palcos desta cidade, uma vez que apenas os “estrangeiros” detém o devido valor que suas altas estirpes exigem. Obviamente que minha ironia é posta aqui para forçar-lhes a reflexão sobre o posicionamento da mídia local no estímulo à produção dos artistas pelotenses. Não acredito que uma cidade com centenas de milhares de habitantes continue concentrando o estímulo à cultura entre aqueles que dispõem de posses suficientes para seguirem enviando seus entes ao “velho mundo” no intuito de retornarem aos célebres salões pelotenses com muitas novidades a serem divididas com os ilustrados locais.
Além disso, ainda ressalto a presença tímida de poucos alunos das faculdades de Teatro, Dança e Artes em geral, nos espetáculos de teatro que se apresentam nesta cidade, sem as celebridades televisas em seus elencos. Talvez isto seja reflexo da sociedade da qual eles provém e/ou estão inseridos, conforme divaguei acima. Todavia, acredito que os centros educacionais, sejam eles de ensino fundamental, médio, tecnológico, superior ou não-formal, devam prezar pela educação e aquisição de cultura por parte de seus educandos, estimulando-os à reflexão dos temas abordados nos mais diferentes espetáculos e estimulando-os a freqüentá-los, independentemente da presença de atores de TV. Neste sentido, a atenção que chamo aos alunos dos cursos da área das artes da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), concerne no fato de que estes educandos serão os futuros profissionais da arte que lidarão com a formação artística das próximas gerações desta cidade. De que forma estes futuros arte educadores lidarão com estes aspectos, se os seus referenciais ainda estarão atrelados ao tradicional costume pelotense de valorizar a cultura do eixo Rio-São Paulo, em detrimento dos artistas locais? Será que estas percepções e reflexões estão presentes na Universidade? Mas, não falemos apenas da universidade, pois Pelotas é uma cidade com um grande número de estudantes de um modo geral. Qual será a visão que os educadores desta cidade espraiam entre seus educandos sobre a produção cultural local? De que forma elevar a auto-estima desta cidade, se ainda persistir o descrédito à produção local? Ademais, algumas pessoas podem tentar justificar a ausência de estudantes nos espetáculos teatrais devido ao alto custo dos ingressos. Entretanto, vale o questionamento à cerca do valor dos ingressos pagos para as festas nas casas noturnas desta cidade e o custo, em bebidas alcoólicas, que uma noite de festas tem no orçamento destas pessoas. Contudo, não estou querendo dizer que a população deva deixar de sair e aproveitar as festas noturnas desta cidade. Muito pelo contrário, o entretenimento e a diversão são aspectos importantes que devem ser contemplados na vida de cada um. Por este motivo, não posso aceitar a justificativa de que os ingressos dos espetáculos de teatro local são elevados, posto que custam menos do que as quantias investidas no álcool e nas festas noturnas.
Após ter feito toda esta divagação sobre o ausente público pelotense nos espetáculos teatrais que ainda se aventuram nesta cidade, retomo o comentário sobre a volta do Palhaço Goiaba, ou Alexandre Coelho à terra que o fez descobrir o amor ao teatro e a sua vocação à técnica de clown. Neste sentido, os presentes puderam conferir momentos de muito riso no espetáculo MMM!!!, no qual o palhaço mostra os seus malabarismos para preparar as refeições de um restaurante, após saber que o cozinheiro não poderia trabalhar neste dia. Apensar de não ter as devidas habilidades para esta tarefa, o palhaço consegue desempenhar todas as funções. Porém, as executa por meio de situações muito atrapalhadas, levando o público ao riso constante, salientando-se o momento em que o ator contracena com 2 gelatinas, numa situação digna dos grandes comediantes em fazer graça com os elementos mais simples possíveis. Além deste momento, gostaria também de ressaltar a situação em que o ator enfrenta ao atuar com uma galinha viva no palco e do que esta ave consegue fazer com o palhaço para que ela não vá parar na panela. Não houve quem não soltasse umas boas gargalhadas ao observar o palhaço nesta situação tão non sense. Outra grata surpresa deste espetáculo, foi quando o ator Lóri Nelson aparece como clown no final, revelando que era ele quem executava a contrarregragem participativa das cenas. Além de Lóri, ainda participava de MMM!!!, o ator francês Matthieu Cheveau, representando o Maitre que leva o público a degustar as palhaçadas que seguir-se-ão. Matthieu inicia sua explanação em francês e, logo em seguida, explica os acontecimentos em espanhol, convidando o público a desfrutar do menu de seu restaurante. Além disso, não posso deixar de citar o momento de lirismo, quando, após todas as situações engraçadas, surge um novo personagem clown-enamorado que irá saborear a refeição com a sua amada. Neste momento, podemos ver a representação deste anjo-ridículo que, apesar de nos levar a muitas risadas, consegue nos emocionar com a pureza de suas simples ações de palhaço.
Para aqueles que acompanharam a carreira de Alexandre Coelho, observar a sua evolução na experimentação das técnicas de palhaço, nos deixa muito orgulhosos, pois este ator iniciou sua carreira em Pelotas, mudou-se para Europa, consolidou o seu trabalho e retorna à cidade de origem para mostrar a sua arte que vem sendo desenvolvida em outro continente. Entretanto, Alexandre nunca fez telenovela no centro do Brasil, talvez tenha sido este o motivo que não levou o público a lotar o Teatro do COP, nem à mídia local prestar-lhe às devidas homenagens. Mas, este fato de nada interfere na qualidade do trabalho deste artista gaúcho que prosseguirá sendo reconhecido no continente europeu. Talvez, agora, após lerem este comentário alguns membros da sociedade pelotense possam enviar seus filhos para apreciarem o trabalho que Alexandre e sua Trupe desenvolvem na Europa.
MSc. Vagner Vargas
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Como não poderia deixar de ser, Alexandre, ou Palhaço Goiaba, apresentou este espetáculo no dia 20 de Dezembro de 2009, no Teatro do Círculo Operário Pelotense (COP). Infelizmente, por se tratar de um domingo, poucas pessoas saíram de casa para prestigiar esta peça de teatro. Entretanto, apesar de não lotarem a plateia do Teatro do COP, o público presente se mostrou bastante caloroso com a apresentação do grupo europeu. Realmente, os pelotenses perderam o costume de colocarem o teatro como membro integrante do seu cardápio de lazer nos finais de semana, sobretudo aos domingos. Houve um tempo em que não importava o dia da semana, que os teatros desta cidade lotavam e, quando falo em teatros, não me refiro apenas ao Teatro Sete de Abril, ou ao Teatro Guarany, o Teatro do COP possuía um público assíduo que o lotava freqüentemente, fazendo com que a busca prévia por ingressos se tornasse uma constante. Atualmente, o que se observa nesta cidade é uma mobilização de marketing de massa intensa para divulgar espetáculos contendo atores de novela e celebridades do eixo Rio-São Paulo.
Quando algum destes espetáculos do centro do país se destina a esta cidade, diariamente, o público é bombardeado por anúncios em rádios, TVs, internet e mídia impressa. Não são poucas as homenagens e as atenções que a sociedade pelotense defere a estes artistas. Porém, a realidade atual mostra que o público não comparece aos teatros devido à crise financeira mundial, no entanto, apesar dos altos preços dos ingressos das produções cariocas e paulistas, os pelotenses não se inibem na hora de adquirir ingressos para toda a sua família comparecer ao evento social teatro que será muito divulgado nas colunas sociais dos jornais locais nas semanas que se seguem. Faço este relato para demonstrar que, em Pelotas, não há falta de público, nem de poder aquisitivo para possibilitar o acesso às apresentações artísticas. Então, por que não observamos os teatros pelotenses lotados, quando os espetáculos não apresentam artistas televisivos? Acredito que uma boa resposta a esta pergunta deveria também contemplar um peso sobre a mídia local em não divulgar os artistas locais, com o mesmo afinco com que o faz para artistas de fora da cidade. Digo isto, pois a formação de opiniões de massa costuma direcionar a sociedade local para que consuma os produtos artísticos que a mídia local julgue dignos de sua apreciação. No entanto, como ficam os artistas locais ante esta realidade? Como fica a auto-estima dos alunos das Faculdades de Dança e Teatro da Universidade Federal de Pelotas, (UFPEL) sabendo que precisarão participar de alguma produção televisiva do centro do país para que obtenham a devida divulgação de seus trabalhos em sua própria cidade?
A reflexão sobre este tema se faz importante à medida que nos damos conta de que, no Brasil, a supervalorização dos produtos importados demonstra um sentimento de inferioridade da população local, em relação aos estrangeiros. Deste modo, Pelotas não deixa de ser diferente. Neste aspecto, não sei se devo generalizar e dizer Pelotas, ou a mídia pelotense, pois é esta quem divulga e estimula o consumo dos produtos artísticos que freqüentam os palcos desta cidade. No meu ponto de vista, a supervalorização do que é produzido fora de nossa cidade, apenas demonstra o provincianismo de uma sociedade ambígua e contraditória, pois, como podemos observar este fato numa cidade que se auto-afirma no imaginário coletivo vangloriando-se de sua arquitetura e histórias construídas em um ambiente pregresso? Pelotas costuma enaltecer os seus doces, o refinamento de sua população e o alto gosto pela cultura. Entretanto, me parece que, para “adquirir sua cultura”, os pelotenses ainda continuam tendo que enviar seus filhos para estudarem na França, ou trazerem os espetáculos franceses para se apresentarem no idioma de origem nos palcos desta cidade, uma vez que apenas os “estrangeiros” detém o devido valor que suas altas estirpes exigem. Obviamente que minha ironia é posta aqui para forçar-lhes a reflexão sobre o posicionamento da mídia local no estímulo à produção dos artistas pelotenses. Não acredito que uma cidade com centenas de milhares de habitantes continue concentrando o estímulo à cultura entre aqueles que dispõem de posses suficientes para seguirem enviando seus entes ao “velho mundo” no intuito de retornarem aos célebres salões pelotenses com muitas novidades a serem divididas com os ilustrados locais.
Além disso, ainda ressalto a presença tímida de poucos alunos das faculdades de Teatro, Dança e Artes em geral, nos espetáculos de teatro que se apresentam nesta cidade, sem as celebridades televisas em seus elencos. Talvez isto seja reflexo da sociedade da qual eles provém e/ou estão inseridos, conforme divaguei acima. Todavia, acredito que os centros educacionais, sejam eles de ensino fundamental, médio, tecnológico, superior ou não-formal, devam prezar pela educação e aquisição de cultura por parte de seus educandos, estimulando-os à reflexão dos temas abordados nos mais diferentes espetáculos e estimulando-os a freqüentá-los, independentemente da presença de atores de TV. Neste sentido, a atenção que chamo aos alunos dos cursos da área das artes da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), concerne no fato de que estes educandos serão os futuros profissionais da arte que lidarão com a formação artística das próximas gerações desta cidade. De que forma estes futuros arte educadores lidarão com estes aspectos, se os seus referenciais ainda estarão atrelados ao tradicional costume pelotense de valorizar a cultura do eixo Rio-São Paulo, em detrimento dos artistas locais? Será que estas percepções e reflexões estão presentes na Universidade? Mas, não falemos apenas da universidade, pois Pelotas é uma cidade com um grande número de estudantes de um modo geral. Qual será a visão que os educadores desta cidade espraiam entre seus educandos sobre a produção cultural local? De que forma elevar a auto-estima desta cidade, se ainda persistir o descrédito à produção local? Ademais, algumas pessoas podem tentar justificar a ausência de estudantes nos espetáculos teatrais devido ao alto custo dos ingressos. Entretanto, vale o questionamento à cerca do valor dos ingressos pagos para as festas nas casas noturnas desta cidade e o custo, em bebidas alcoólicas, que uma noite de festas tem no orçamento destas pessoas. Contudo, não estou querendo dizer que a população deva deixar de sair e aproveitar as festas noturnas desta cidade. Muito pelo contrário, o entretenimento e a diversão são aspectos importantes que devem ser contemplados na vida de cada um. Por este motivo, não posso aceitar a justificativa de que os ingressos dos espetáculos de teatro local são elevados, posto que custam menos do que as quantias investidas no álcool e nas festas noturnas.
Após ter feito toda esta divagação sobre o ausente público pelotense nos espetáculos teatrais que ainda se aventuram nesta cidade, retomo o comentário sobre a volta do Palhaço Goiaba, ou Alexandre Coelho à terra que o fez descobrir o amor ao teatro e a sua vocação à técnica de clown. Neste sentido, os presentes puderam conferir momentos de muito riso no espetáculo MMM!!!, no qual o palhaço mostra os seus malabarismos para preparar as refeições de um restaurante, após saber que o cozinheiro não poderia trabalhar neste dia. Apensar de não ter as devidas habilidades para esta tarefa, o palhaço consegue desempenhar todas as funções. Porém, as executa por meio de situações muito atrapalhadas, levando o público ao riso constante, salientando-se o momento em que o ator contracena com 2 gelatinas, numa situação digna dos grandes comediantes em fazer graça com os elementos mais simples possíveis. Além deste momento, gostaria também de ressaltar a situação em que o ator enfrenta ao atuar com uma galinha viva no palco e do que esta ave consegue fazer com o palhaço para que ela não vá parar na panela. Não houve quem não soltasse umas boas gargalhadas ao observar o palhaço nesta situação tão non sense. Outra grata surpresa deste espetáculo, foi quando o ator Lóri Nelson aparece como clown no final, revelando que era ele quem executava a contrarregragem participativa das cenas. Além de Lóri, ainda participava de MMM!!!, o ator francês Matthieu Cheveau, representando o Maitre que leva o público a degustar as palhaçadas que seguir-se-ão. Matthieu inicia sua explanação em francês e, logo em seguida, explica os acontecimentos em espanhol, convidando o público a desfrutar do menu de seu restaurante. Além disso, não posso deixar de citar o momento de lirismo, quando, após todas as situações engraçadas, surge um novo personagem clown-enamorado que irá saborear a refeição com a sua amada. Neste momento, podemos ver a representação deste anjo-ridículo que, apesar de nos levar a muitas risadas, consegue nos emocionar com a pureza de suas simples ações de palhaço.
Para aqueles que acompanharam a carreira de Alexandre Coelho, observar a sua evolução na experimentação das técnicas de palhaço, nos deixa muito orgulhosos, pois este ator iniciou sua carreira em Pelotas, mudou-se para Europa, consolidou o seu trabalho e retorna à cidade de origem para mostrar a sua arte que vem sendo desenvolvida em outro continente. Entretanto, Alexandre nunca fez telenovela no centro do Brasil, talvez tenha sido este o motivo que não levou o público a lotar o Teatro do COP, nem à mídia local prestar-lhe às devidas homenagens. Mas, este fato de nada interfere na qualidade do trabalho deste artista gaúcho que prosseguirá sendo reconhecido no continente europeu. Talvez, agora, após lerem este comentário alguns membros da sociedade pelotense possam enviar seus filhos para apreciarem o trabalho que Alexandre e sua Trupe desenvolvem na Europa.
MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 -Integrante do Clube dos Comentaristas de Espetáculos Teatrais de Pelotas (CCETP).
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O Marinheiro
De setembro deste ano para cá tenho comparecido em salas de teatro em diversas ocasiões e lugares. Tenho visto salas quase vazias, talvez por causa de filmes e novelas que podem ser vistos sem que seja preciso sair de casa.
No teatro não apenas se destoa da mesmice televisiva, mas também são tratados assuntos que a mídia tenta evitar. Também há de se citar que, por termos diversos grupos teatrais na cidade e até mesmo um curso de teatro na UFPel, certamente há trabalhos de qualidade sendo feitos por aqui.
Neste ano tivemos um encontro de teatro promovido pelo Teatro Sete de Abril e delineia-se um festival para o ano vindouro. Chama a atenção a agitação do teatro local. Ainda assim, as cadeiras da plateia permanecem quase vazias.
Assisti há poucas semanas, no dia 25 de novembro, no foyer do Sete de Abril, por meio do projeto 'Cena Literária', a peça 'O Marinheiro', trazida pelo Teatro Escola de Pelotas. Assistindo ao espetáculo fui colocado no interior de um sonho. Não. Não dormi durante o espetáculo. Pelo contrário, o texto me prendeu do início ao fim.
Uma cadeira e um véu compunham o cenário. Cada uma das personagens carregava consigo apenas uma vela e um livro. A beleza da simplicidade se fez evidente na montagem do trabalho. Causou-me estranheza que as atrizes lessem o texto de suas falas durante a execução da peça, ainda que camuflado nos livros constantemente manuseados. A trilha sonora induzia à introspecção, ressaltando ainda mais a ideia central do texto de Fernando Pessoa. O público que cabe no foyer do teatro é pequeno e deve-se destacar que na ocasião era composto na sua maioria por pessoas ligadas ao teatro (alunos do curso da UFPel representavam mais de metade da plateia).
Depois dessa encenação assisti outras mais. Em um festival de esquetes realizado em São Leopoldo também me deparei com grande parte das cadeiras vazias.
Em um cenário tão prolífero como esse, falta algo essencial: quem assista. Cultura não é cultivada em uma ou duas semanas de eventos artísticos. Tivemos há pouco na cidade reuniões e mostras relacionadas à cultura. Isso pouco vale se for um evento isolado, mas sim se torna-se hábito.
Por Paulo Alfrino Borba
No teatro não apenas se destoa da mesmice televisiva, mas também são tratados assuntos que a mídia tenta evitar. Também há de se citar que, por termos diversos grupos teatrais na cidade e até mesmo um curso de teatro na UFPel, certamente há trabalhos de qualidade sendo feitos por aqui.
Neste ano tivemos um encontro de teatro promovido pelo Teatro Sete de Abril e delineia-se um festival para o ano vindouro. Chama a atenção a agitação do teatro local. Ainda assim, as cadeiras da plateia permanecem quase vazias.
Assisti há poucas semanas, no dia 25 de novembro, no foyer do Sete de Abril, por meio do projeto 'Cena Literária', a peça 'O Marinheiro', trazida pelo Teatro Escola de Pelotas. Assistindo ao espetáculo fui colocado no interior de um sonho. Não. Não dormi durante o espetáculo. Pelo contrário, o texto me prendeu do início ao fim.
Uma cadeira e um véu compunham o cenário. Cada uma das personagens carregava consigo apenas uma vela e um livro. A beleza da simplicidade se fez evidente na montagem do trabalho. Causou-me estranheza que as atrizes lessem o texto de suas falas durante a execução da peça, ainda que camuflado nos livros constantemente manuseados. A trilha sonora induzia à introspecção, ressaltando ainda mais a ideia central do texto de Fernando Pessoa. O público que cabe no foyer do teatro é pequeno e deve-se destacar que na ocasião era composto na sua maioria por pessoas ligadas ao teatro (alunos do curso da UFPel representavam mais de metade da plateia).
Depois dessa encenação assisti outras mais. Em um festival de esquetes realizado em São Leopoldo também me deparei com grande parte das cadeiras vazias.
Em um cenário tão prolífero como esse, falta algo essencial: quem assista. Cultura não é cultivada em uma ou duas semanas de eventos artísticos. Tivemos há pouco na cidade reuniões e mostras relacionadas à cultura. Isso pouco vale se for um evento isolado, mas sim se torna-se hábito.
Por Paulo Alfrino Borba
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Medéia: Talento Não Tem Idade
Por volta das 19:30, mais de cem pessoas lotaram o teatro do Instituto de Artes e Design (IAD) da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), no dia 15 de Dezembro de 2009, para assistirem ao processo de montagem do texto Medéia, de Eurípedes, representado por Josiane Almada, aluna do segundo ano de ensino médio da Escola Estadual Joaquim Duval, coordenado pela professora de Literatura Dagma Colomby. Certamente, foi um grande desafio para uma adolescente de 19 anos enfrentar uma platéia lotada de atores, diretores, professores de teatro e alunos das faculdades de dança, teatro, cinema, música e artes visuais da UFPEL, além do público em geral.
Neste sentido, saliento o virtuosismo com que Josiane interpretou Medéia, uma mulher com mais de quarenta anos, amargurada pelos dissabores da vida que, em um momento de loucura, acaba matando os próprios filhos, no intuito de vingar-se do ex-marido, após ele ter se casado com uma mulher mais jovem. Sendo assim, o que mais chamou atenção não foi apenas a capacidade interpretativa da jovem atriz, mas sim, a compreensão que esta adolescente apresentava de cada palavra do texto, expondo todo o denso universo psicológico que Medéia exige. Relato estes fatos, pois, atualmente, com uma triste constância observamos muitas pessoas subirem ao palco, intitularem-se atores, sem sequer significarem o texto dito pelas personagens e ainda chamarem isto de teatro.
Outro aspecto importante, refere-se ao fato do trabalho evidente em vertentes baseadas em poéticas do teatro físico, tratando o ator como um elemento orgânico, onde observamos todo o contexto sendo contado através da fusão dos aspectos físicos e psicológicos da personagem. Estas características estavam presentes neste trabalho e seu crédito deve-se, em grande parte, ao brilhante trabalho da professora Dagma Colomby, a qual, além de diretora de teatro e atriz há mais de 20 anos nesta cidade, soube conduzir, com maestria, o trabalho de sua aluna. Deste modo, percebe-se o eficiente labor de uma educadora capaz de descobrir os meios possíveis para alcançar a significação do processo criativo por parte de seus alunos. Além disso, Dagma e Josiane construíram um trabalho competente, no qual seus referenciais as levou a criar uma atmosfera que transcendeu aos limites do palco, envolvendo todos os presentes. Em função disso, não foram poucas as vezes em que era possível ouvir o choro da platéia comungando com o sofrimento e a loucura de Medéia.
Em consonância com o que foi dito acima, reafirmo que a batalha de uma professora e uma aluna de ensino médio, de uma escola pública, distante do perímetro central desta cidade ao levarem o seu trabalho artístico para apreciação de um público acadêmico, dentro da própria Universidade, foi vencida com o brilhantismo e a sensibilidade que somente os verdadeiros artistas possuem. Desta forma, espero que o nome Josiane Almada seja uma constante em futuros espetáculos teatrais. Ademais, anseio que o trabalho da diretora Dagma Colomby obtenha o devido respeito que merece. Entretanto, ainda sinto falta desta atriz novamente nos palcos pelotenses. Esta situação deve-se muito ao fato de há alguns anos Dagma dedicar-se ao fomento da arte teatral no Bairro Santa Teresinha, em Pelotas, agregando mais de cem pessoas em seu trabalho de experimentação teatral.
Portanto, espero que os preconceitos intelectuais do centro e zonas “nobres” desta cidade consigam ter o respeito e humildade em identificar que o talento surge independentemente de sua situação socioeconômica e geográfica. Acrescentado-se a isso, almejo que este digno trabalho, construído em uma escola pública, reverbere estimulando o processo criativo em outros locais desta cidade, onde freqüentemente resta apenas a soberba e o saudosismo, já que o público anseia por gozar dos prazeres que somente a arte pode lhes fornecer.
MSc. Vagner Vargas
DRT – Ator – 6606 - Integrante do CCETP.
vagnervarg@yahoo.com.br
Neste sentido, saliento o virtuosismo com que Josiane interpretou Medéia, uma mulher com mais de quarenta anos, amargurada pelos dissabores da vida que, em um momento de loucura, acaba matando os próprios filhos, no intuito de vingar-se do ex-marido, após ele ter se casado com uma mulher mais jovem. Sendo assim, o que mais chamou atenção não foi apenas a capacidade interpretativa da jovem atriz, mas sim, a compreensão que esta adolescente apresentava de cada palavra do texto, expondo todo o denso universo psicológico que Medéia exige. Relato estes fatos, pois, atualmente, com uma triste constância observamos muitas pessoas subirem ao palco, intitularem-se atores, sem sequer significarem o texto dito pelas personagens e ainda chamarem isto de teatro.
Outro aspecto importante, refere-se ao fato do trabalho evidente em vertentes baseadas em poéticas do teatro físico, tratando o ator como um elemento orgânico, onde observamos todo o contexto sendo contado através da fusão dos aspectos físicos e psicológicos da personagem. Estas características estavam presentes neste trabalho e seu crédito deve-se, em grande parte, ao brilhante trabalho da professora Dagma Colomby, a qual, além de diretora de teatro e atriz há mais de 20 anos nesta cidade, soube conduzir, com maestria, o trabalho de sua aluna. Deste modo, percebe-se o eficiente labor de uma educadora capaz de descobrir os meios possíveis para alcançar a significação do processo criativo por parte de seus alunos. Além disso, Dagma e Josiane construíram um trabalho competente, no qual seus referenciais as levou a criar uma atmosfera que transcendeu aos limites do palco, envolvendo todos os presentes. Em função disso, não foram poucas as vezes em que era possível ouvir o choro da platéia comungando com o sofrimento e a loucura de Medéia.
Em consonância com o que foi dito acima, reafirmo que a batalha de uma professora e uma aluna de ensino médio, de uma escola pública, distante do perímetro central desta cidade ao levarem o seu trabalho artístico para apreciação de um público acadêmico, dentro da própria Universidade, foi vencida com o brilhantismo e a sensibilidade que somente os verdadeiros artistas possuem. Desta forma, espero que o nome Josiane Almada seja uma constante em futuros espetáculos teatrais. Ademais, anseio que o trabalho da diretora Dagma Colomby obtenha o devido respeito que merece. Entretanto, ainda sinto falta desta atriz novamente nos palcos pelotenses. Esta situação deve-se muito ao fato de há alguns anos Dagma dedicar-se ao fomento da arte teatral no Bairro Santa Teresinha, em Pelotas, agregando mais de cem pessoas em seu trabalho de experimentação teatral.
Portanto, espero que os preconceitos intelectuais do centro e zonas “nobres” desta cidade consigam ter o respeito e humildade em identificar que o talento surge independentemente de sua situação socioeconômica e geográfica. Acrescentado-se a isso, almejo que este digno trabalho, construído em uma escola pública, reverbere estimulando o processo criativo em outros locais desta cidade, onde freqüentemente resta apenas a soberba e o saudosismo, já que o público anseia por gozar dos prazeres que somente a arte pode lhes fornecer.
MSc. Vagner Vargas
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Revisitando Eus
Na tarde de sábado, dia 14 de novembro de 2009, a comunidade da região das doquinhas de Pelotas teve a oportunidade de assistir ao espetáculo Revisitando Nossos "eus", do Centro Contemporâneo de Pesquisa e Movimento Berê Fuhro Souto. O espetáculo foi apresentado ao ar livre, com entrada franca. Aos poucos várias pessoas foram aproximando-se para descobrirem de onde vinha aquela música e o que significava aquele sofá disposto fora dos padrões. Muitas foram as pessoas que se perguntavam o que iria acontecer ali. Mas, o que mais chamou atenção foram as famílias da região trazendo seus filhos para assistirem a alguma apresentação que eles nem sabiam do que se tratava. Entretanto, traziam todas as crianças para assistirem-na.
O espetáculo aborda, através da dança-teatro, a obra dos poetas Clarice Lispector e Fernando Pessoa, interpretado por três dançarinas-atrizes de uma forma muito delicada. A escolha dos textos estava sensivelmente conectada à execução dos movimentos que, intercalados com momentos de acompanhamento musical e outros não, prendiam paulatinamente a atenção do público. Algumas pessoas podem pensar que a erudição de poetas como Clarice e Fernando ficaria restrita a plateias já iniciadas nos estudos literários, ou que se habituam ao consumo artístico há muito tempo. No entanto, o que Berê Fuhro Souto e seu grupo comprovaram foi que, independentemente do local onde se leve a arte, ela é capaz de tocar até mesmo aos que ainda não dispunham de referenciais para analisá-la criticamente. O espaço onde se deu a apresentação foi muito bem aproveitado pelo grupo, que algumas vezes usou a fachada de um tradicional bar do local para compor seus movimentos, de uma forma que parecia que o espetáculo havia sido concebido para aquele lugar. Esta apropriação que o grupo fez do espaço cênico foi muito importante para integrar o público à cena. Mais importante ainda foi para que os presentes repensassem a tradicional ideia de que teatro e dança são manifestações artísticas que devem ser apresentadas somente em teatros com palco italiano.
Além disso, pouco a pouco, o espetáculo ia conquistando uma plateia considerada, por vezes, das mais difíceis: as crianças. O público infantil que se aglomerou à volta do espaço assistia a tudo silenciosamente. De início, todos perguntavam aos adultos do que se tratava aquela movimentação. Os adultos respondiam que deveria ser teatro, ou alguma outra apresentação. Realmente, dança-teatro é uma área de intersecção ainda desconhecida para muitos. Porém, devemos saber que a separação entre dança, música e teatro ocorreu apenas no nosso mundo ocidental sequitarista, que algumas vezes necessita separar todas as partes para que possa compreendê-las, como se a visão de um todo fosse impossível aos olhos dos demais. Atualmente, os movimentos em dança-teatro vêm para quebrar estes paradigmas, pegando o público despercebido e, ao mesmo tempo, captando-os para dentro das cenas que se formam através de movimentos e palavras imbricados entre si, propondo-nos uma nova visão de arte.
Sendo assim, oportunidades para revisitarmos Clarice Lispector e Fernando Pessoa são sempre válidas, especialmente quando observamos fenômenos de vendas literárias de autores estrangeiros, enquanto o público brasileiro – dos poucos que lêem – desconhecem os grandes autores da língua portuguesa. Por este motivo, o Centro Contemporâneo de Pesquisa e Movimento Berê Fuhro Souto está de parabéns pelo trabalho realizado em levar, através da dança-teatro, das melhores literaturas a um público que muitas vezes mantém-se esquecido dos investimentos políticos em cultura.
MSc. Vagner Vargas
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O espetáculo aborda, através da dança-teatro, a obra dos poetas Clarice Lispector e Fernando Pessoa, interpretado por três dançarinas-atrizes de uma forma muito delicada. A escolha dos textos estava sensivelmente conectada à execução dos movimentos que, intercalados com momentos de acompanhamento musical e outros não, prendiam paulatinamente a atenção do público. Algumas pessoas podem pensar que a erudição de poetas como Clarice e Fernando ficaria restrita a plateias já iniciadas nos estudos literários, ou que se habituam ao consumo artístico há muito tempo. No entanto, o que Berê Fuhro Souto e seu grupo comprovaram foi que, independentemente do local onde se leve a arte, ela é capaz de tocar até mesmo aos que ainda não dispunham de referenciais para analisá-la criticamente. O espaço onde se deu a apresentação foi muito bem aproveitado pelo grupo, que algumas vezes usou a fachada de um tradicional bar do local para compor seus movimentos, de uma forma que parecia que o espetáculo havia sido concebido para aquele lugar. Esta apropriação que o grupo fez do espaço cênico foi muito importante para integrar o público à cena. Mais importante ainda foi para que os presentes repensassem a tradicional ideia de que teatro e dança são manifestações artísticas que devem ser apresentadas somente em teatros com palco italiano.
Além disso, pouco a pouco, o espetáculo ia conquistando uma plateia considerada, por vezes, das mais difíceis: as crianças. O público infantil que se aglomerou à volta do espaço assistia a tudo silenciosamente. De início, todos perguntavam aos adultos do que se tratava aquela movimentação. Os adultos respondiam que deveria ser teatro, ou alguma outra apresentação. Realmente, dança-teatro é uma área de intersecção ainda desconhecida para muitos. Porém, devemos saber que a separação entre dança, música e teatro ocorreu apenas no nosso mundo ocidental sequitarista, que algumas vezes necessita separar todas as partes para que possa compreendê-las, como se a visão de um todo fosse impossível aos olhos dos demais. Atualmente, os movimentos em dança-teatro vêm para quebrar estes paradigmas, pegando o público despercebido e, ao mesmo tempo, captando-os para dentro das cenas que se formam através de movimentos e palavras imbricados entre si, propondo-nos uma nova visão de arte.
Sendo assim, oportunidades para revisitarmos Clarice Lispector e Fernando Pessoa são sempre válidas, especialmente quando observamos fenômenos de vendas literárias de autores estrangeiros, enquanto o público brasileiro – dos poucos que lêem – desconhecem os grandes autores da língua portuguesa. Por este motivo, o Centro Contemporâneo de Pesquisa e Movimento Berê Fuhro Souto está de parabéns pelo trabalho realizado em levar, através da dança-teatro, das melhores literaturas a um público que muitas vezes mantém-se esquecido dos investimentos políticos em cultura.
MSc. Vagner Vargas
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